
A quarta temporada de Sherlock Holmes é excelente. E espero que seja a última.
Esta é a consideração final do texto que você está lendo. Na verdade, esta era a única coisa que eu escreveria sobre o último episódio lançado, The Final Problem. Estava pronta para ser publicada no twitter. Mas mudei de ideia. Nos próximas poucas palavras, tento resumir os motivos para pensar isso. Espero que faça sentido.
O fato é que esta quarta temporada de Sherlock foi, provavelmente, a temporada de uma série que me deixou com o maior conflito sentimental em relação à continuidade do programa do que qualquer outra coisa que eu consiga me lembrar. Saindo de uma segunda temporada excelente e tendo passando por uma terceira que é tão irregular quanto fraca, Sherlock tem, em seu quarto ano, um conjunto de três episódios (não considero, aqui, o sólido episódio especial de ano novo de 2016) que mantêm uma crescente construção de tensão e expectativa que evidenciam um tratamento muito mais carinhoso que o trio exibido em 2014.
Aproveitando o gancho já proposto anteriormente, quero falar um pouco sobre a trama, que se ajusta cada vez melhor aos conflitos pessoais da dupla principal. Os conflitos ficam cada vez mais intimistas e os problemas nos levam em uma jornada cada vez mais intensa para o cerne de John Watson e Sherlock Holmes. Aliás, a não ser por algumas rimas estabelecidas com outros momentos da série (lembrados no momento "Anteriormente", antes do episódio dAs Seis Tatchers - como quando Sherlock atira em Magnussen), esta temporada funciona praticamente sozinha no ponto de vista simbólico e emocional.
A quarta temporada parece se opor totalmente à anterior, ideologicamente. Enquanto aquela se preocupava muito mais em atender às demandas do "fandom", por vezes de forma bastante caricata, esta se interessa em dar novos rumos, inclusive totalmente imprevistos, para a trama. A inclusão de uma nova personagem, inédita e alheia ao "cânone" do personagem criado por Conan Doyle ao final do Século XIX, muda completamente as bases com as quais as histórias originais do detetive foram estabelecidas, bem como a proposta da série de "adaptação" das tramas para a atualidade. Eurus, irmã de Sherlock criada exclusivamente para a série da BBC, mostra muita coragem por parte da equipe criativa por trás dos panos, personificada nas figuras de Steven Moffat e Mark Gatiss, mas também demarca melhor as cores de um esgotamento da fórmula do "gênio do crime por trás dos acontecimentos" cujos contornos podiam ser vistos desde a temporada anterior, em decorrência da morte de Moriarty, icônico nêmesis do protagonista.
Aqui, tudo parece ter um tom de despedida. Ligados pelas consequências emocionais da trágica morte de Mary e pela presença de Eurus (a ironia: uma se despede enquanto a outra se apresenta), os episódios se conectam, assim como a dupla principal, de forma mais trágica e sombria. A discussão de temas como sacrifício, família, segredos e a utilização da memória como elemento de construção de identidade toma a principal parte da carga dramática da temporada de forma bastante explícita, mas nunca caricata e nem sem ausência de justificativa.
Eurus (ou Vento do Leste - que, aliás, faz uma referência a uma fala de Sherlock em sua última história, "Seu Último Adeus", se referindo à Guerra) é a aposta da série nas possibilidades de forma paradoxal (e poética, de certa forma): é um resgate das origens do personagem, ao mesmo tempo em que é uma negação às origens da série. Trata da infância de Sherlock Holmes enquanto nega o cânone estabelecido pelo criador do personagem. A personagem passa, inclusive, pelo mesmo drama que seu irmão: está solitária, acima de todos, precisando de alguém que esteja abaixo e seja capaz de integrá-la. Da mesma forma, Mary não deixa de ser uma representação também: em seu discurso de despedida, faz uma ode à dupla que chama de Os Garotos de Baker Street.
No Cavaleiro das Trevas (2008), dirigido por Christopher Nolan, existe uma máxima que vale para tudo: "ou você morre como herói, ou vive o suficiente para se ver transformado em vilão". O que me traz de volta ao pensamento que iniciou este texto. O Vento do Leste chegou. Moriarty e Mary partiram. É intenso, poético e justo. É por isso que, com um sentimento agridoce de alegria, satisfação e respeito digo que a quarta temporada de Sherlock Holmes é excelente. E espero que seja a última.
