Mulher Maravilha


O cinema é mentira. São histórias contadas para um espectador, que procura o cinema justamente para ser enganado. Ou melhor, para acreditar em algo. Que entra em uma sala para acreditar que o homem pode voar, ou que é possível recuperar a fé na humanidade quando a vendo através dos olhos de um Deus morto ou mesmo que, para encontrar seu verdadeiro lugar no mundo, é preciso contestar a razão da sua própria criação. A própria forma como um filme é feito, com certas convenções que servem justamente para simular a realidade, funciona a serviço dessa "mentira" q ser contada.

O roteiro é assinado por Allan Heinberg e dirigido por Patty Jenkins. Os principais nomes do elenco são Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright e Connie Nielsen. A fotografia é assinada por Matthew Jensen. Mulher Maravilha é uma personagem criada por William Moulton Marston.

Os filmes da DC vêm, desde O Cavaleiro das Trevas Ressurge, seguindo a estética visual e moral estabelecida por Christopher Nolan em sua versão do Batman e apanhando bastante por isso. Talvez pela compreensão rasa que Zack Snyder tem de tudo que usa como base para seus filmes (como é obviamente o caso com Watchmen, por exemplo), características como o tom escuro e pessimista dos filmes, que têm cores esmaecidas e personagens moralmente duvidosos, chamaram mais atenção que os próprios filmes. Esse padrão acabou gerando um claro desgaste da imagem tanto dos filmes da DC quanto do próprio Zack Snyder e é com a Mulher Maravilha de Patty Jenkins e Gal Gadot, que foge à estética "snyderiana", que vemos uma luz no fim do túnel.

A uma primeira impressão, o primeiro ato é muito lento e arrastado, começando nos dias atuais e virando mais de uma vez um "Inception" de narrações. O roteiro elabora soluções simples para entregar diálogos extremamente expositivos, que até chegam a funcionar bem narrativamente, mas que ainda são diálogos extremamente expositivos. A progressão desse início lento para o final intenso acontece de forma progressiva e contida e o filme se segura muito para não acabar, assim como Batman v Superman e O Homem de Aço, em uma sequência enorme e confusa de ação desenfreada. Tudo é bastante contido e a estrutura se aproxima muito mais de um filme de guerra que tem uma heroína no meio do que, necessariamente, de um filme de herói em si. Ponto positivo.

Existem alguns pontos que denunciam claramente a preferência estética de Patty Jenkins e que podem ser vistas inclusive em Monster, primeiro longa-metragem da diretora, mas que não necessariamente são pontos positivos. A imagem extremamente granulada, por exemplo, faz muito sentido no outro filme mas não tem nenhum motivo nem lógica aparente para ser empregada aqui. Aparece muito nas cenas que se passam na Ilha-Paraíso, principalmente durante o dia, mas em algumas cenas noturnas desaparece completamente. Talvez queira nos dizer algo em outra camada de leitura que, à primeira vista, não seja muito clara.

Tematicamente falando, o filme gira em torno de mentiras. A mentira à sombra da qual Diana vive sua vida inteira, bem como as mentiras contadas pelos homens e que leva ao caos, e que é inclusive aplicada à própria direção do filme, que por vezes nos mostra signos que levam a uma interpretação, mas que não verdade estão ali por outro motivo. Até mesmo os pôsteres do filme tomam outro significado depois que o filme é visto. Esse trabalho com a mudança de perspectiva que uma informação a mais ou a menos pode causar é muito interessante.

As cenas de ação são muito bem coreografadas esteticamente. Todas as lutas são muito bonitas, especialmente uma cena em que a principal arma da princesa amazona é o laço da verdade, que brilha enquanto é usado e consegue deixar tudo ainda mais bonito. Por outro lado, várias vezes as coreografias não passam a real impressão de uma luta e mostram impactos visivelmente não sentidos. É muito claro que não é pela violência que aquelas lutas estão ali.

A montagem traz, a todo o tempo, a denúncia de que estamos assistindo a um filme. É utilizada uma montagem visível, que chama a atenção para a linguagem utilizada no filme o tempo todo. Um exemplo é quando se mostra Diana deixando a espada fincada em um lugar, abre para um contra plano e, ao mostrar ela novamente, apresenta a protagonista voltando do caminho até a arma, já com ela empunhada. Esse artifício é utilizado várias vezes durante o filme. Se isso é por questão estética, se tem algum recado ou se foi simplesmente problema de continuidade, cabe ao espectador decidir.

No fim das contas, Mulher Maravilha não só é o primeiro filme feito de sobre uma heróina (mulher) desde Elektra (esse filme conta?), como também é o filme da DC que mais se esforça para a agradar ao público geral, que. Aliás, que não simplesmente se esforça pra agradar. Ele consegue e consegue bem. Talvez a DC precise de mais Patty Jenkins e menos Zack Snyder.
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