Capitão Fantástico

Poder para o povo. Abaixo o sistema.

Ver Capitão Fantástico é uma experiência, no mínimo, interessante. Aliás, muito mais que interessante, visto que o próprio personagem que dá nome ao filme considera esta como sendo uma "não-palavra". E pudera: Ben Cash é um homem que vive por completo, bem como sua família. Treinados desde pequenos para serem filósofos, com os conhecimentos mais diversos sobre os assuntos mais aleatórios e com capacidades atléticas e de caça, seus filhos formam uma boa caricatura dos benefícios que uma criação socialista, de autossustentação e amor ao próximo pode trazer para a sociedade em geral.

Escrito e dirigido por Matt Ross, o filme conta com as atuações de Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler e Annalise Basso, entre outros. A fotografia é dirigida por Stéphane Fontaine, enquanto a montagem fica a cargo de Joseph Krings, a direção de arte é feita por Russell Barnes e a trilha sonora é de Alex Somers.

É muito claro, desde o princípio, o retrato que o filme quer pintar sobre os Cash (vide a ironia presente no nome) e, além disso, é muito bonita a forma aberta e natural como ele o pinta. Por mais que aqueles costumes nos sejam estranhos, não há qualquer indício de anormalidade que aponte para uma criação nociva aos garotos que estamos vendo crescer ali. Pelo menos não por enquanto.

É apenas ao entrar em conflito com o tipo de estrutura familiar e social que temos estabelecido como padrão normativo que nos chega a reflexão sobre o quão estranhos são os costumes daquela família. E é aí, muito provavelmente, que está um dos maiores tesouros do filme: a apresentação de dois lados opostos de organização humana que funcionam de forma quase antagônica, mas não entram em embate de forma caricata, deixando o espaço de decisão sobre o que parece mais certo para o espectador, visto que as próprias personagens se encontram em conflito com a exposição. Ao vermos o lado da família de Ben, o Capitão Fantástico, antes e totalmente isolada do que conhecemos em nossa bolha social, somos familiarizados ao lado dele antes de sermos expostos ao lado que já nos é familiar desde o início de nossas vidas.

Ao contrário do que pode parecer, a exposição feita em Capitão Fantástico é simples, tranquila e recheada de momentos que dizem muito em sua simplicidade. Mesmo que o texto se torne bastante complexo por várias vezes, esses momentos são sempre complementados com algum elemento que torna a assimilação da cena muito mais fácil. Um dos grandes exemplos disso é uma cena em que os direitos civis dos cidadãos dos Estados Unidos são explicados por Zaja, interpretada por ATRIZ, que há poucos minutos havia perguntado ao pai por que diabos um homem enfiaria o pênis na vagina de uma mulher. A utilização da inocência e da curiosidade das crianças como agente de transformação da forma de se pensar a educação também é muito bem explorada no filme a partir desse viés.

Capitão Fantástico é definitivamente um filme que deve ser visto, revisto e discutido nos mais diversos círculos sociais. A discussão sobre o capitalismo, a escolaridade obrigatória e instrumental e a superproteção dos mais novos em contraste com a vida livre envolta em uma filosofia de subsistência, por exemplo, nos faz pensar sobre a forma como estamos encarando nossas vidas. O que foi que deu errado para que convivamos com toda essa sujeira, todo esse ruído que existe nas interações humanas, sejam elas de qualquer tipo? E mais: seria o modo como a família de Ben vive a alternativa ideal para o sistema que temos vigente? Nunca poderemos saber. Mas podemos nos alegrar por existirem filmes como este, que nos permitem essa "espiadinha" do outro lado.
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