7 Anos

SINOPSE
Quatro amigos enfrentam um dilema: um deles será preso por todos, mas o sacrifício deles precisa valer a pena.

Volta e meia eu me deparo com algumas surpresas muito boas na Netflix. O serviço de streamming, que tem me dado muito mais felicidade que qualquer ida ao cinema que eu tenha feito nos últimos tempos, tem algumas pérolas que a gente só precisa de um pouco de sorte, paciência ou um bom aplicativo chamado Upflix pra encontrar. E foi através desse app que eu fui notificado que na última sexta-feira, 28 de outubro, a plataforma lançou a primeira produção nacional da Netflix Espanha, chamada 7 Anos (7 Años).

O roteiro de Jose Cabeza é baseado no argumento de Julia Fontana e dirigido por Roger Gual. O elenco é composto apenas por Juana Acosta, Alex BrendemühlPaco LeónManuel MorónJuan Pablo RabaMarta Torné. A música é coordenada por Federico Jusid e a direção de fotografia é feita por Arnau Valls Colomer.

Tem algo que me deixa muito surpreso e empolgado em perceber que estou vendo um "filme de diálogo". A simples premissa de colocar cinco pessoas presas em uma sala, tentando resolver algum tipo de problema, sempre me deixa com o maior nível de interesse que eu possa ter em relação a filmes. A possibilidade de dar muito certo ou muito errado é sempre grande, considerando que a maior parte do peso se concentra na necessidade de o roteirista escrever diálogos convincentes e de os atores o darem vida de forma orgânica. É claro que nenhuma das outras funções pode ser negligenciada, uma vez que o que vemos e ouvimos vai muito além desses dois fatores.


Em 7 Anos, isso pode ser visto logo de cara. Uma vez que todos estão no ambiente, a direção de arte e o figurino conversam muito a fim de trazer para o campo visual as relações das personagens, seja entre si ou delas com o ambiente e a empresa. O interessante é que estas relações e as possibilidades que elas abrem, mesmo que dêem indícios sobre o que querem mostrar, de forma alguma tornam as coisas óbvias dentro da narrativa que se segue. O fato de a luz principal de um dos ambientes, bem como muitas partes das paredes serem azuis, assim como a camisa que Marcel está usando, mostram como ele se conecta com este lugar e o preenche, mesmo antes de descobrirmos que ele é o CEO da empresa. O mesmo acontece com Carlos, que, a princípio, está vestido de vermelho, que é também uma cor integrante na coloração das paredes (visto que Carlos, como gerente de contas, é também uma das pessoas mais "visíveis" da empresa).

Em sua enorme inteligência, o roteiro traça dois paralelos muito interessantes, que são basicamente as motivações voluntárias e involuntárias das personagens: o primeiro deles, mais óbvio, já que se repete por muitas vezes, se trata de uma conversa sobre encontrar o que cada pessoa quer e, assim, fazer o melhor para todos. Isso traz à tona uma discussão muito interessante sobre o que é justiça. Se eu ganho algo de alguém de forma que não me satisfaz e outra pessoa consegue a mesma coisa de forma que fique satisfeita, o que está sendo injusto? Eu, por ter expectativas erradas sobre o que procuro conseguir, ou a pessoa que me deu esta coisa, que não talvez não tenha considerado meus desejos tanto quanto possa ter considerado os de outra pessoa? O que seria justo, nesse caso: que a pessoa desse uma coisa diferente para cada, para agradar ambos, ou dar a mesma coisa para os dois e garantir que todos teriam a mesma oportunidade?

O segundo, mais sutil e interessante, é a ironia por trás de toda a situação. Os amigos sonegaram impostos, não pelo dinheiro que lhes seria "tirado" pelo governo, mas sim pelo tempo que investiram para conseguir aquele dinheiro, que nunca lhes será devolvido. E é este mesmo tempo, que se recusam a entregar para alguém, que será tomado da pessoa que decidir ser presa, uma vez que ficará sete anos encarcerada. Igualmente irônico é que, por seu apreço ao tempo, agora estejam justamente lutando contra ele para que consigam resolver sua situação de forma que todos saiam ganhando no fim das contas.


Confesso que talvez a coisa menos interessante do filme seja a forma como ele é dirigido, em relação a seus planos e seus momentos. Existe uma câmera que não para nunca, bem como os bandidos que estão ali reunidos, mas que não entrega muita coisa além daquilo. Em certos momentos, a forma como o filme é gravado parece dar a impressão de que havia algum dinheiro sobrando para fazer certas coisas, como um travelling lateral que fica rodando ao redor da mesa onde eles estão, por nenhum motivo aparente. É estranho.

No fim das contas, 7 Anos é uma produção que parece bastante independente, que aposta na força de seu roteiro e da forma como ele é conduzido, sem depender de artifício algum para enganar ou prender o espectador a alguma coisa que não seja exatamente a discussão que está se dando ali. Vale a pena conferir.
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