
Talvez seja clichê dizer que o ser humano é um ser social. Que as nossas ações influenciam a sociedade e que nós somos (e, consequentemente, nossas ações) afetados pelo ambiente social no qual estamos inseridos. Que somos um espelho de nosso meio, bem como projetamos nele nossas identidades. E isso é verdade, por mais clichê que isso seja. Talvez o Espelho Negro ao qual se refere o título da série não seja, necessariamente, sobre a utilização da tecnologia para refletir uma característica perturbadora da humanidade. No caso de nossa própria relação com o meio, o Espelho Negro não somos nós mesmos? E, se pensarmos de forma mais pessimista, não seria o próprio ambiente que nos rodeia?
Aliás, talvez haja algo mais para esta constatação. Dizer que o "ser humano é um ser social", além de clichê, é perfeitamente cômodo. Somos o que o meio nos impõe, logo estamos livre da culpa de sermos quem (ou o que) somos. Mas fora do círculo colorido da zona de conforto que esta máxima provem, está a cruel constatação: o ser humano não é exclusivamente um ser social. Há algo a mais, em nós, que existe dentro de quem somos e que escondemos das outras pessoas. Ao ser submetido a um exame mais atento, que é exatamente o que Black Mirror se propõe a fazer, o "ser social" mostra sua verdade oculta: que também é um ser antissocial. Ao menos é isso que Shut Up and Dance, terceiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, nos diz através da narrativa trágica que nos acostumamos a amar durante as duas primeiras temporadas.
Este episódio funciona basicamente como um reforço que ao primeiro episódio, Nosedive (cuja reflexão você pode ler AQUI), mesmo que, contraditoriamente, seja basicamente uma apresentação do outro lado da moeda. Se lá discutimos a forma como a constante busca por aprovação nos leva a esconder um lado nosso, orgânico, que não é aceitável aos padrões assépticos daquela sociedade (de seres sociais de Nosedive), aqui vemos exatamente a podridão de alguns comportamentos que são escondidos a sete chaves pelos indivíduos que precisam ao menos se encaixar na linha do aceitável em na realidade em que vivemos (que aqui, bem como no outro texto, chamo de Mundo Tangível).
Shut Up and Dance conta a história de Kenny, um garoto que passa a ser chantageado por pessoas desconhecidas ao receber um e-mail com um vídeo seu se masturbando em frente ao computador, gravado através de sua própria webcam. A partir deste momento, Kenny passa a receber mensagens com tarefas que o levam a conhecer pessoas que estão em situação parecida: também correm o risco de ter um comportamento antissocial exposto às pessoas que os rodeiam.

É estranho pensar na realidade pessimista na qual este episódio está inserido: ao contrário de Nosedive (que não me canso de referenciar por ser o complemento perfeito para este episódio), Shut Up and Dance não dispõe de nenhum "mocinho". Pelo contrário: não seria este "vigia" (ou vigilante) a pessoa mais próxima de alguém com quem possamos nos identificar? Encaro a inteligência do episódio em justamente humanizar aqueles que estão errados, por seus comportamentos inaceitáveis, ao passo que esta figura que os chantageia (que vou continuar chamando de Vigia) permanece sempre nas sombras, se mostrando irredutível e inflexível frente às interações que se dão com os "pecadores".
E, se nossos medos são parte de quem somos, como vimos em Playtest, o que o terror de Kenny e os outros que estão na mesma situação que ele dizem sobre quem são essas pessoas que estamos acompanhando? Ora, e se conhecem sua condição e entendem a anormalidade dela frente aos valores da sociedade em que vivem (e que vivemos, também, visto que em nada este episódio se distancia de nosso Mundo Tangível), muito mais sensata que a que acompanhamos em Nosedive, por que simplesmente não param de cometer tais atos e encerram esta condição? Por que não querem? Por que não podem?
Talvez por isto este episódio seja tão acertado em nos deixar ao lado dos marginais, dos pecadores. Pois eles somos nós. Por que não encerramos nossos vícios, uma vez que nos damos conta de sua nocividade, bem como sua inaceitabilidade no meio em que estamos inseridos? Nos falta controle, indiciando algum instinto feral incontrolável que questione a construção de nosso caráter como seres sociais, ou simplesmente aceitamos nossa condição por sabermos que o outro, em sua hora mais escura, também abraça suas falhas e desvios? E quem somos nós para decidir? Eis a questão.
