Black Mirror - Terceira Temporada: Perdedor


Escrever sobre temporadas de Black Mirror, como um todo, é bastante improvável. Isso porque a série parte da premissa de que cada episódio conta uma história diferente, estando ou não no mesmo universo dos outros da temporada (ou de outras temporadas). Sendo assim, e considerando que cada episódio tem informação suficiente para render uma discussão completa por si só, acabei escolhendo fazer um texto sobre cada um dos episódios (ou falando de dois episódios por texto, dependendo do quanto render).

Sendo um formato "especial", mesmo que se trate de uma obra fechada que pode ser analisada como um filme, por exemplo, acabei escolhendo pela discussão mais abrangente dos temas apresentados em cada episódio, ao invés de pensar neles como objetos de análise técnica. Espero que você goste.

Episódio 1 - Perdedor (Nosedive)


O primeiro episódio, Perdedor, trata da história de uma garota, Lacey Pound, que vive em uma realidade na qual as pessoas são ranqueadas a partir de sua classificação com base em estrelas (de 0 a 5) em uma rede social que parece ser universal e totalmente incorporada às instituições. Com um perfil aspiracional, Lacey tenta conquistar o maior número possível de pessoas para conseguir o Desconto Influenciador, concedido a usuários com notas a partir de 4,5, no valor de aluguel de uma casa que pretende morar. É quando recebe o convite para ser dama de honra no casamento de sua velha amiga, Naomi, que vê a possibilidade de conseguir essa nota.



Logo de início, o episódio já parece ter exatamente o clima esperado de um episódio de Black Mirror. Com uma trilha melancólica (que já "reflete" a condição de toda a sociedade ali retratada) e cores lavadas, essa realidade é retratada como vazia e superficial. A trama é basicamente a mesma de "App Development and Condiments", oitavo episódio da quinta temporada de Community, série que ia ao ar pela NBC, se diferenciando pelo apelo sério e dramático inerente a Black Mirror, ao contrário da paródia escrachada que é apresentada em Community, que é uma série de comédia.

O tema do episódio é surpreendentemente óbvio. Ele fala da nossa busca constante por aprovação e de como nossa sociedade é baseada nisso, de uma forma que chega a ser agressiva. Mas a obviedade do tema não significa, necessariamente, que este seja um tema batido. Muito pelo contrário. E é nisso que o episódio se destaca: falar sobre como isso nos impede de realmente viver como pessoas, complexas e tridimensionais. Ora, somos todos feitos da mesma coisa e, mesmo que tenhamos prioridades diferentes e necessidades especiais que se diferenciam, no nível básico somos essencialmente iguais.

Qual é, então, o sentido em marginalizar comportamentos que podem não ser os mais adequados para determinados momentos, mas que são completamente orgânicos dentro da dinâmica social que está dada há muito tempo dentro das comunidades, sejam "reais" ou cibernéticas? É estranho perceber como estas convenções, estas leis não escritas influenciam cada vez mais na criação de sociedades apáticas e assépticas, onde o orgânico não é aceitável - muito pelo contrário: o aceitável existe em detrimento do orgânico.



Aliás, a própria classificação, dada na forma de estrelas neste universo, existe no nosso mundo tangível com outro tipo de moeda e essa divisão é considerada como algo comum por todos nós. Em certo momento do episódio, o vôo de Lacey é cancelado e ela precisa pegar outro avião, mas o assento do próximo vôo possível está disponível apenas para usuários a partir de certo nível. Nesse momento, Lacey ultrapassa a barreira do aceitável e tem a reação orgânica ao que está posto: não aceita e se mostra indignada, sendo reprimida pela instituição e pelas outras pessoas da fila. No mundo tangível (nosso mundo), quantas vezes esta situação não se repete? Há a separação de prioridade entre os indivíduos a partir de um nivelamento entre as partes de forma explícita, de várias maneiras possíveis (seja em relação a dinheiro, comportamento, gênero, etnia etc.). Além disso, se mantém o retrato da repressão exercida pela vigilância incessante entre os próprios indivíduos dentro das instituições sociais, tal como dado nos conceitos apresentados sobre a sociedade de vigilância.

O episódio mostra isso de maneira inteligente, até que começa a se mostrar cada vez mais disposto a apresentar a felicidade contida na negação desses valores que são inerentes à sociedade que apresenta, ao invés de abraçar o peso existencialista da escolha dessa negação, como indicia fazer em um momento anterior. No mais, esteja posta a reflexão.
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