O Shaolin do Sertão


SINOPSE 
Durante a década de 80, lutadores de vale-tudo passam por dificuldades devido à falta de lutas profissionais. A fim de manter a paixão pela luta, eles desafiam os valentões no interior do Ceará que aceitam participar da competição criada. É assim que Aloísio Li vê a sua chance de ouro para realizar o sonho de se tornar um verdadeiro mestre das lutas como os heróis de seus filmes favoritos.



Comédias não precisam, necessariamente, ser super engraçadas. Existe algo que vai muito além disso e leva comédias que não são necessariamente hilárias até o topo da nossa memória (ou a ponta de nossa língua, se você preferir) quando alguém fala em bons filmes do gênero: esse "algo" é o espírito. O espírito de um filme varia, obviamente, de acordo com o gênero ao qual ele pertence. Na comédia, esse espírito consiste basicamente em te tirar do seu estado normal, de modo a te fazer sair da sala de cinema com o espírito lavado. Isso é algo que eu aprecio muito em comédias - isso no caso de não haver risadas, claro. O Shaolin do Sertão, novo filme de Halder Gomes, diretor de Cine Holliúdy, não consegue fazer nenhuma das coisas.

Cine Holliúdy é um grande respiro no cenário nacional. Brincando bastante com a inocência do sertanejo, bem como com algumas tradições que já devem ser conhecidas por boa parte dos nordestinos e de seus descendentes, o filme consegue ser extremamente engraçado e ainda trazer certa reflexão sobre alguns pontos interessantes, como a busca pela realização de um sonho (além, claro, da grande homenagem que faz à cultura do kung fu e ao próprio Cinema). Alguns destes pontos são resgatados em O Shaolin do Sertão, como a homenagem ao kung fu (uma vez que a presença do shaolin se vê desde o título) e a busca do sertanejo inocente pela realização de um sonho.


Por outro lado, é uma pena que a história, que "funciona" como uma versão shaolin nordestina de Rocky - Um Lutador, não traga nada além desses elementos para dar mais profundidade e tridimensionalidade para o que está sendo contado ali. Além disso, a tal inocência sertaneja é alternada entre a romantização e a paródia, de um jeito que fica difícil de acompanhar, principalmente por seguir um padrão que não parte de nenhuma lógica narrativa.


A estética shaolin (que parece ser a real grande paixão de Halder Gomes), pelo menos, é muito privilegiada dentro do filme. Logo em seu início, O Shaolin do Sertão traz uma cena de um filme que parece chinês, mas que na verdade é uma cena gravada pelo próprio elenco, introduzindo o que talvez seja o elemento mais interessante do filme, que é a subjetividade mental do protagonista e a forma como ele assimila as coisas sempre a partir da referência ao kung-fu. Nesta mesma cena de início, outro ponto se destaca: a razão de aspecto é de 3:4 comprimido em uma imagem que imita o VHS e o protagonista realiza um kata que expande o formato para o que conhecemos, de 16:9. isso é responsável pela formação de uma rima que vem bem depois, quando dizem que os chineses são "espichados como lombrigas". Eventualmente, essa referência ao fato de os filmes virem comprimidos para o formato VHS se cansa pela repetição, como basicamente tudo que acontece no filme. O que é uma pena.

O Shaolin do Sertão é o típico filme que, quanto mais rápido for esquecido, melhor para o espectador e para seus próprios realizadores. É uma pena que, a todo momento, o filme parece fazer o possível para que isso não aconteça. Além disso, logo em seu início, é anunciado que a produção de Cine Holliúdy 2 já está em produção. Isso, na verdade, explica muita coisa. Até mais do que gostaríamos.
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