
Clara mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento

Quando penso, em retrospecto, sobre Aquarius, sinto que não entendi muito bem o que o filme queria me dizer. Não que este seja um filme "complicado". Mas existe uma certa diferença entre o que é dito e o que pretende ser dito, principalmente em obras que sempre nos dão indícios de que existem mensagens escondidas na forma como são construídas.
Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, o filme tem nomes como Sonia Braga e Humberto Carrão no elenco, além dos já familiares Maeve Jinkings e Irandhir Santos. Pedro Sotero e Fabricio Tadeu fazem a direção de fotografia. O filme não tem créditos de composição de trilha sonora original, já que não há trilha incidental. Todas as músicas são de terceiros e têm fontes diegéticas durante o filme.
Diferente de O Som ao Redor, que tinha vários núcleos, a trama de Aquarius inteira gira em torno de Clara, desde o seu início, na década de 80 com o aniversário de 70 anos de uma tia presente na família, até o último momento. Sua motivação, explicitada em uma metáfora através dos discos de vinil da personagem durante uma entrevista logo no início do filme, é novamente pincelada em momentos-chave e serve como principal motor para os conflitos, tanto entre ela e seus filhos quanto entre ela e a grande corporação que a antagoniza.

O problema aqui é que Clara é uma protagonista que se vale mais do que já sabe do que ainda tem por aprender. Sempre agindo de forma intensa à sua própria maneira aos assuntos que a rodeiam e trazendo o embate entre o futuro (representado pelos sonhos das pessoas que abandonaram seus apartamentos) e o passado (representado pela relutância de Clara em abandonar o dela), Clara não tem um arco de desenvolvimento durante o filme e deixa o espectador em uma posição difícil, quando jogado no meio da briga entre ela e seus antagonistas.
Chegando nos aspectos técnicos, é onde o laço se aperta para mim. Kleber Mendonça Filho parece querer chamar mais atenção para o fato de estarmos vendo um filme do que, necessariamente, para a história que este conta. Cheio de movimentos de câmera que nos levam de nada a lugar nenhum e brincadeiras longas com o zoom (tanto para zoom in quanto zoom out), o filme passa, algumas vezes, a impressão de que o diretor está querendo estabelecer referências narrativas para algo que nunca vem. É claro que alguns momentos são mais simples e mais óbvios, como quando vemos um casal fazendo sexo a poucos metros de uma quadra de esportes que fica perto do apartamento de Clara a partir de um único plano, que utiliza muito bem estes dois movimentos que citei anteriormente.
Isso me faz pensar que, na ausência do dinamismo que a montagem relacionando os diferentes núcleos de O Som ao Redor trazia para o filme, em Aquarius o diretor tenta compensar com um outro tipo de ação na tela. E a máxima de que "até um relógio quebrado dá a hora certa duas vezes por dia" é levada à prova aqui: se um diretor cuja habilidade e domínio da linguagem são notáveis utiliza um recurso à exaustão e obtém alguns resultados bons e outros ruins, ele fez tantas vezes que acabou acertando, ou fez tantas vezes que acabou errando? Não sei dizer. Mas minha mãe já dizia que tudo em excesso é ruim.

Sônia Braga, sendo o grande centro de gravidade sobre o qual todo o resto do filme orbita, faz um trabalho interessantíssimo na pele de Clara. Por nos passar o tempo todo a sensação de calma que a personagem emana, as poucas explosões dela durante o filme causam um impacto tão grande que torna terrível a ideia de qualquer outra atriz interpretando o papel. Outra atuação que merece atenção é a de Humberto Carrão, que entrega um jovem carismático que se mostra ambíguo em relação a suas intenções durante todo o filme.
Mesmo devendo muito para O Som ao Redor, Aquarius não deixa de ser um bom filme. Suas qualidades refletem a já consolidada carreira de sucesso de Kleber Mendonça Filho, enquanto seus "defeitos" trazem à tela a intenção do diretor de trazer coisas novas ao seu trabalho e ao cenário atual de filmes brasileiros.
