
Um grupo de estudantes de Milwaukee, durante uma viagem para acampar em uma das florestas da região, decide penetrar ainda mais no coração das árvores do que o previsto e acaba descobrindo que a floresta esconde seres perigosos.

Por Alessandro Resende
O fato de que Hollywood gosta de viver, e reciclar, nostalgias não é novidade. Todo ano uma leva de filmes nessa linha estreiam, sendo continuações de sucessos ou até mesmo uma nova proposta de filmagem. O que importa é trazer mais uma vez à tona aquela ideia que movimentou um enorme público e tentar gerar novamente uma satisfatória bilheteria. No terror, essa tentativa de continuar/reviver um roteiro acontece constantemente, correndo o risco de talvez oscilar demais em sua essência.
Pois bem, 2016 chegou e, em seu início, muito se escutou falar sobre um filme denominado The Woods. Tudo que se conhecia sobre ele era o seu teaser, uma floresta sendo filmada, e como todo o seu mistério, havia a expectativa de ser um dos melhores longas de terror do ano. Os meses foram passando e mais nada foi falado, deixando quem acompanha o gênero curioso. Eis que na Comic Con, um dos maiores eventos de cultura pop, acontece uma reviravolta: na verdade The Woods foi um título criado para esconder a produção de um novo filme da franquia A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999). Ou seja, a surpresa foi enorme, pois há a muito tempo se comentava sobre um novo filme da famosa lenda, esquecendo, claro, da deplorável continuação de 2000, A Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras (Book of Shadows: Blair Witch 2, 2000). Juntamente com o anúncio, um trailer também foi liberado, deixando claro que estava mais próximo do que se imaginava. O primeiro filme, lançado lá em 1999, foi um grande estouro. Além de explorar (muito bem) a estética do found footage, o longa criou todo um ambiente concreto para se acreditar que tudo aquilo era real, principalmente em sua divulgação. Cenas icônicas marcaram o cinema, como o discurso de uma das personagens em desespero com a câmera em super close, ou até mesmo outro personagem no canto da amaldiçoada casa do final do filme.

Treze anos depois e com o estilo de filmagem caseira já um pouco saturado, estruturar um novo roteiro para Bruxa de Blair (Blair Witch, 2016) soava meio arriscado e até ousado demais. O original de 1999, que centra sua tensão totalmente no ambiente em que se desenrola, não agradaria hoje o público que procura no terror o jumpscare. E, por cenas recheadas de sustos serem a tendência hoje no circuito comercial de Hollywood, a desconfiança perante o novo Bruxa de Blair era alta. Para agradar o público, talvez a produção saísse da atmosfera criada lá atrás na franquia e seguisse uma nova vertente. Porém, para todo um deleite dos fãs, permaneceram com os pés no chão, mesmo sendo possível visualizar uma pequena entrega ao que o público hoje prefere. Dirigido por Adam Wingard e escrito por Simon Barrett, o filme explora, e muito, todo o clima carregado pela lenda da floresta de Burkittsville. A história da bruxa que vaga por aquelas terras ganha ainda mais evidência, mas não com um tom tão realista quanto o do primeiro filme, o qual convencia melhor como sendo factual, com falas e relatos de moradores. No caso desse novo filme, temos a reprodução de detalhes da lenda somente por dois jovens, que estão ali para gerar dúvidas entre personagens.
Mesmo ainda guiando bem o mistério e suspense daquele local, Bruxa de Blair apresenta cenas desnecessárias, como detalhar a forma em que alguns personagens desaparecem. O original do final da década de 90 acertou em cheio em exatamente criar um terreno de segredos em toda sua condução de roteiro. Era tudo uma incógnita até mesmo para os atores, que iam sabendo aos poucos o que precisavam fazer e eram minimamente informados pela produção. Ou seja, todo o sumiço de personagens não era explícito, o que casava muito bem com o meio em que a narrativa se passava. Já a continuação desse ano acaba querendo se explicar demais. Mesmo sustentando bem o suspense, há momentos que facilmente poderiam não existir para favorecer o roteiro. Há sequências que não fazem muito sentido e um leve problema de continuidade. O final, que é intenso em sua modalidade de deixar apreensivo quem assiste, quebra um pouco a proposta de a famosa bruxa nunca ter sido mostrada e também o minimalismo da casa na floresta que tanto acrescentava ao medo. Nesse novo filme da franquia, o recinto bizarro, no qual agora apresenta com ênfase a lenda de pessoas nos cantos das paredes, é explorado com maior tempo de tela, não sendo uma experiência ruim. O que antes era a pergunta “o que de fato é a bruxa?”, agora ganha uma resposta rápida, mesmo sendo ínfima e não concreta, para alegria de muitos.

Em suma, toda a composição intimista conhecida pelo primeiro filme, ganha um tom mais abrangente nessa nova sequência. O singelo perde a vez. É uma proposta aceitável. Entretanto é visível, em alguns instantes, um toque de quase entrega à tendência atual dentro do terror. O conforto para os fãs é: a atmosfera apresentada antes na perigosa floresta ainda é preservada, ainda que com tentativas de ir além. Isto é, a base de toda a ideia do mistério de Blair prevaleceu, recebendo agora um olhar mais amplo, principalmente em seu último ato. Momentos descartáveis surgem ao longo dos 89 minutos? Surgem. Contudo, passagens fiéis à franquia também estão ali para incorporar a tensão do local.
