Ave, César!


SINOPSE 
Hollywood, anos 1950. Edward Mannix é o responsável por proteger as estrelas do estúdio Capitol Pictures de escândalos e polêmicas e vive um dia intenso quando Baird Whitlock, astro da superprodução "Hail, Caesar!", é sequestrado no meio das filmagens por uma organização chamada "Futuro".



Os filmes dos irmãos Coen são sempre dignos de nota. Se são notas boas ou ruins, isso acaba dependendo do gosto específico do espectador. Mas a versatilidade dos dois, que conseguem sair de filmes seríssimos (como Onde os Fracos Não Têm Vez) para entrar em comédias malucas (como Queime Depois de Ler) ou até mesmo sair de produções muito independentes e autorais (como Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum) para entrar em grandes filmes (como este Ave, César!) é impressionante.

Produzido, escrito e dirigido pelos já citados irmãos Ethan e Joel Coen, o filme é estrelado por Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich e Tilda Swinton, entre vários outros nomes. A trilha sonora é feita por Carter Burwell, enquanto a direção de fotografia fica a cargo de Roger Deakins. Uma curiosidade é que o filme também foi montado pelos próprios irmãos Coen, mas creditados sob o nome de Roderick Jaynes.

O filme apresenta vários núcleos de personagens em diferentes produções dentro do estúdio Capitol Pictures, coordenado pelo protagonista, Mannix. Todos esses núcleos têm uma dinâmica muito interessante individualmente, mas são ainda melhores em conjunto. Isso acontece porque todos são ligados, tanto narrativa quanto tematicamente. Não apenas por serem produções do mesmo estúdio, conectadas pelo chefe de produção, mas também pelas relações dadas fora do set de filmagem entre as personagens que ali orbitam.



Recheado de discussões de alto nível e áreas diferentes, Ave César mostra as diferenças entre os entendimentos dos especialistas de cada área, indo desde a "essência da dialética" e a semelhança entre os estudos de História e Economia até a relação entre Deus e Jesus Cristo. A maior parte das discussões com esse perfil acaba não tendo muita relevância narrativa, mas ajuda muito na criação do clima do filme, que mistura o total nonsense com momentos bastante sérios e joga, inclusive, alguns conceitos místicos dentro desta mistura maluca feita pelos irmãos Coen.

O filme fala bastante sobre a importância do cinema e da construção de sonhos em sets de filmagem para o bom funcionamento da sociedade como um todo - fazendo, ao mesmo tempo, um paralelo sobre como essa indústria acaba se tornando uma forte arma do capitalismo opressor sobre a mesma sociedade. Não faltam homenagens, durante todo o tempo, aos mais diversos gêneros que dominaram as telas nestes pouco mais de cem anos de existência da sétima arte, seja dentro das produções que acontecem paralelamente no estúdio, seja na própria estrutura narrativa do longa.

O elenco também é um grande destaque aqui, tanto pelas excelentes atuações quanto pelo peso dos nomes envolvidos na produção. Uma característica das produções dos irmãos Coen (que o Wes Anderson passou a compartilhar depois) é o tamanho gigante do elenco popular, dado o número de pessoas que querem trabalhar com eles. Sendo assim, temos grandes nomes interpretando papéis pequenos, como Frances McDormand aparecendo em apenas uma cena, quase sem relevância narrativa, como montadora do filme principal da história (coincidentemente, também chamado Ave, César!).



Mesmo sendo muito divertido, o filme não deve atingir o público como um todo. O humor dos irmãos Coen é meio peculiar e extrai a piada de lugares meio improváveis, dentro da construção da cena. Além disso, pode acabar sofrendo do mesmo problema que Better Call Saul, por exemplo, e acabar sendo considerado como uma produção na qual nada acontece (o que não deixa de ser verdade, mas que também é uma grande mentira). Muito acontece o tempo todo, mas de uma forma tão peculiar quanto o humor que envolve o filme.

Ave, César! talvez não seja um dos melhores filmes dos irmãos Coen, mas muito provavelmente vai ser considerado como um dos melhores do primeiro semestre de 2016. É divertido ao mesmo tempo em que é sério, discute a importância social da indústria ao mesmo tempo em que critica o caráter predatório institucionalizado pelo sistema capitalista no qual vivemos e o total controle da vida dos artistas pelos grandes estúdios na primeira metade do século passado. Se você vai gostar ou não, eu não faço a menor ideia. Mas tenho certeza de que você deve assistir.
Compartilhe no Google Plus