
Após os eventos de O Homem de Aço, Superman divide a opinião da população mundial. Enquanto muitos contam com ele como herói e principal salvador, vários outros não concordam com sua permanência no planeta. Bruce Wayne está do lado dos inimigos de Clark Kent e decide usar sua força de Batman para enfrentá-lo. Enquanto os dois brigam, porém, uma nova ameaça ganha força.

Batman e Superman dispensam apresentações. Mesmo antes desta onda absurda de filmes de heróis, os dois já habitavam o imaginário coletivo como figuras de heroísmo e fantasia, seja na mente de homens ou mulheres, de crianças, jovens ou adultos. Animações como a dos Super Amigos e da Liga da Justiça, que passaram por tanto tempo na TV aberta, nos apresentaram desde cedo aos Melhores do Mundo, que têm os dois como suas maiores estrelas (seguidos muito de perto por Mulher Maravilha, que, apesar de também ser muito icônica, ainda precisa de certa apresentação a certos tipos de público - ao contrário de seus outros dois parceiros que compõem a famosa Trindade).
Utilizando os personagens da DC Comics, o roteiro foi escrito por David S. Goyer, passou por revisão de Chris Terrio e foi dirigido pelo visionário diretor Zack Snyder. Os principais nomes do elenco são Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot e Amy Adams. A direção de fotografia é de Larry Fong, enquanto a trilha sonora ficou a cargo de Junkie XL, em parceria com o mestre Hans Zimmer.
A relação deste filme com o tempo é algo que deve ser visto com certa atenção: não é que algumas coisas aconteçam muito rápida ou lentamente durante o filme, mas a passagem de tempo, pelo menos nos vinte primeiros minutos, é um pouco conturbada. Tendo sua história ambientada um ano e meio depois dos acontecimentos de O Homem de Aço, o filme conta com dois prólogos (sendo um deles totalmente desnecessário) e mais de um epílogo (mostrando como a relutância cega da Warner/DC em seguir o famoso "Padrão Marvel", com cenas pós-créditos, pode ser prejudicial à própria percepção dos filmes). Dentro do filme, em si, este problema não é muito visível. Esse excesso de informação (incluindo a aparição inoportuna de Aquaman e Ciborgue - citaria o Flash, também, mas este parece ter função narrativa), imagino eu, se deve basicamente ao fato de a DC estar "correndo atrás do prejuízo" para tentar alcançar a concorrente em termos de construção de seu universo cinematográfico.

A montagem talvez seja algo que poderia ter recebido um pouco mais de atenção, por parte da Warner. Existe um certo problema com a construção lógica dos fatos dentro do filme, que leva o espectador a algumas dúvidas (que não parecem propositais). Além disso, existe uma certa mania de dar pouco espaço em tela para algumas coisas interessantes, em detrimento de outras que são aparentemente irrelevantes para o momento. Esse problema se torna mais visível principalmente enquanto o filme se encaminha para seus momentos finais. Estou aqui chamando de "problemas", mas não acho que este seja o nome mais adequado. A montagem não chega a prejudicar o filme diretamente, mas também não ajuda em muita coisa.
Mas aqui estamos nós, falando sobre o filme que prometia juntar a Trindade nos cinemas. É claro que precisamos tirar um certo tempo para pensar em como estas personagens tão icônicas foram inseridas no filme, não deixando de considerar que Snyder tenta criar seu próprio Universo DC, sem se apoiar muito nas características clássicas de cada um:
Superman, já apresentado em Homem de Aço (embora ali ainda não fosse O Superman), continua seu caminho em direção a se tornar Dr. Manhattan, de Watchmen. O herói parece cada vez mais frio, egoísta e distante de sua própria humanidade. É uma versão do herói que chega até a se aproximar um pouco, tematicamente falando, do Superman que vemos em Entre a Foice e o Martelo e Injustice, por exemplo. É claro que esta roupagem do Filho de Krypton vai incomodar muito àqueles que vão ao cinema esperando ver o clássico escoteiro super poderoso na tela grande.

Ben Affleck, por sua vez, interpreta a que é provavelmente a melhor versão do Batman que já apareceu nos cinemas. Versátil, grande, extremamente forte e ágil, e obviamente paranoico, este Homem Morcego dá um pulo de fé e se arrisca a colocar um pé no campo do Fantástico, ao contrário de suas versões anteriores. Essa reconfiguração, muito baseada principalmente nos jogos de videogame, como Injustice e a série Arkham, cria um Cavaleiro das Trevas que muitos de nós queríamos ver nos cinemas há muito tempo e, convenhamos, a única que seria capaz de viver no mesmo universo que um Super Homem (e até mesmo cair na porrada com ele).
Mas mesmo que o Batman seja uma realização de muitos pedidos de aniversário dos DCnautas por aí, a mais grata surpresa deste filme é a Mulher Maravilha. Basicamente correndo por fora pela maior parte do filme, Diana Prince se mantém uma personagem misteriosa e interessante, durante todo o tempo. Demonstra ser muito inteligente e ter sua parcela de reservas quanto à humanidade, fazendo um ótimo contraponto ao Batman, neste sentido. Além disso, é impossível ressaltar o quão maravilhosa é a personagem em batalha, sendo tão versátil quanto Batman e conseguindo ser mais poderosa que o próprio Superman. A ansiedade para o filme da Princesa de Temiscira é enorme.
Infelizmente, o ponto mais baixo do filme é justamente aquele que já prevíamos no trailer: Lex Luthor, interpretado pelo monstro de estrume que é Jesse Eisenberg como ator, tem algumas das características mais interessantes de todos os personagens, mas teve a infelicidade de ter o pior ator possível o interpretando. Extremamente inteligente e sagaz, Luthor é basicamente a linha que conduz o filme inteiro (e, aparentemente, o que vem por aí no Universo Cinematográfico da DC, também). Triste é saber que as pessoas responsáveis pelo casting deste caso, muito provavelmente, ficarão com uma mancha bem grande e gorda em seus currículos por muito tempo. Lex, apoiado pelo texto e destruído pela atuação, é o exato contraponto de Lois Lane, interpretada pela maravilhosa Amy Adams e condenada pelo texto ridículo que a guia.

Alguns problemas assombram o roteiro até o fim, também. Por ter várias funções, o filme não dá muito tempo para que os problemas sejam resolvidos, então segue um caminho de resoluções fáceis e convenientes. A conveniência é um maneirismo que se repete por várias vezes, seja em forma de motivações duvidosas para criação de conflitos ou das saídas simples para os conflitos já criados. Não que a gente espere roteiros impecáveis desse tipo de filme, mas algumas coisas a gente realmente não consegue defender.
Acima de tudo, o "Batman vs Superman" do título é uma grande click bait. Existe, de fato, uma luta entre os dois heróis (uma luta muito boa, ainda por cima), mas é A Origem da Justiça que se destaca no fim das contas. O mais interessante é que a maioria das dicas do que vem por aí partem justamente dos dois mais humanos da trama: Batman e Lex Luthor. Algumas das dicas são extremamente mal construídas, como a identidade visual de alguns arquivos de Luthor, mas outras são totalmente empolgantes, nos fazendo imaginar e esperar pelo que vem pela frente (e que esses acontecimentos futuros parecem já ter sido planejados desde a produção de BvS).
Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice) não é um grande filme, por assim dizer. Tem um roteiro meio preguiçoso, um diretor megalomaníaco (assim como o vilão apresentado e porcamente interpretado) e nada consciente do que faz e uma montagem carente de atenção. Mesmo assim, seu visual épico, sua trilha sonora (tão empolgante quanto os próprios heróis que reúne) e os caminhos que apresenta para o futuro do universo da DC nos cinemas são mais do que o suficiente para aquecer o coração de quem consome filmes de heróis e servir de alternativa àqueles que procuram produções desse tipo um pouco menos coloridas e sorridentes do que a concorrente vem entregando nos últimos tempos.
