Demolidor - 2ª Temporada

SINOPSE 
Em seu segundo ano, Demolidor precisa enfrentar um homem implacável que representa uma nova imagem para os vigilantes, enquanto Elektra, um amor do passado, retorna para sua vida. Enquanto luta pela ordem, Matt Murdock entende mais sobre a guerra que vem sendo traçada nas sombras e toma a cidade há muito mais tempo do que podia imaginar.

Na última sexta-feira, dia 18 de março de 2016, a Netflix lançou sua segunda temporada da série Demolidor (Daredevil), em parceria com a Marvel Studios. Considerando a qualidade sólida da primeira temporada, a expectativa era, confesso aqui, mais alta do que eu gostaria de admitir neste texto. Nos próximos parágrafos, eu adoraria escrever sobre o quanto fui recompensado e como a qualidade foi mantida, mas a verdade é que eu me sinto como se não tivesse entendido a temporada. A seguir, tento falar um pouco de alguns aspectos que considero interessantes e outros que influenciaram na minha confusão (que, por vezes, achei que estivesse dividindo com os responsáveis pelo segundo ano da série).

Além dos nomes já conhecidos da série, a segunda temporada traz a presença de tela de Elodie Yung e Jon Bernthal. O diretor de fotografia do primeiro ano, Matthew J. Lloyd, é substituído por Martin Ahlgren.

A temporada é basicamente dividida em dois arcos simultâneos e, consequentemente, dois núcleos distintos: o primeiro nos apresenta ao Justiceiro (Punisher), um verdadeiro exército de um homem só movido pelo desejo de vingança e falta de fé no sistema judiciário da cidade, que só serve para manter seus bandidos nas ruas e os cidadãos presos em casa. Neste arco, Demolidor enfrenta a responsabilidade de seus atos como vigilante e os reflexos disso na sociedade. Na visão dele, Justiceiro é apenas um reflexo distorcido do que o Demônio de Hell's Kitchen representa para a cidade. Os diálogos entre os dois sobre até onde ir para parar o crime apenas confirmam o que já vinha sendo plantado desde o primeiro minuto da temporada: Justiceiro já é a melhor personagem da série e seu aspecto de anti-herói foi muito bem acolhido pela alta classificação indicativa da produção.


Por outro lado, a trama com Justiceiro logo passa a correr em segundo plano, já que ele fica aos cuidados de Foggy Nelson e Karen Page (esta, principalmente), em um clima que lembra muito o de séries e filmes que se passam em tribunais (sinceramente, este é um dos pontos mais altos da temporada). Demolidor o abandona para encontrar Elektra e entender mais sobre a guerra travada nas sombras que vem sendo anunciada desde o primeiro ano da série. Esta trama, por mais importante que seja, tem um andamento desinteressante e soa bastante forçada. Elektra não tem um pingo de carisma e suas discussões com Demolidor (pelo menos as que importam, já que eles passam um tempo enorme conversando sobre relacionamento conturbado dos dois - Claro que a personagem surge como um conflito romântico para o protagonista) não vão nada além de um reflexo do que o protagonista já havia discutido antes com Frank Castle.

A intercalação dessas duas tramas, cada uma sendo narrativamente independente da outra, acaba gerando uma temporada com o ritmo totalmente irregular, cujas intenções não parecem exatamente claras. Além disso, a comparação é praticamente inevitável: enquanto uma parte é uma sucessão de eventos diretamente ligada à temporada anterior, a outra traz a apresentação (ou o "ano um") de um novo jogador, que chega a ser muito mais interessante do que todos aqueles que já estão ali. Além disso, o contraste entre os próprios estilos narrativos que diferem ambas é muito acentuado: enquanto um parte de um princípio prisional, que mistura ação com tribunal em um contexto de realismo enquanto o outro investe em uma iniciativa mais surreal.

Enquanto Karen Page se desenvolve, encontramos algumas repetições de fórmulas utilizadas na primeira temporada. A jornada da personagem, ainda correndo por fora por ser a única mulher relevante da série (pelo menos em seu núcleo), segue um rumo já traçado por sua personagem no ano anterior, enquanto busca pelo passado do "vilão principal" e nos apresenta, de acordo com o caminhar de suas descobertas, maiores informações sobre o antagonista quem com quem os heróis estão cruzando. Não que a trama seja ruim. Através de sua interação com Frank Castle, Karen Page é, provavelmente, uma das personagens que mais crescem em tela durante esta temporada.


É interessante perceber que essa temporada, ao contrário da anterior, aposta mais na significação através dos diálogos do que na abordagem pelo campo visual. Existem menos planos significativos, ao mesmo tempo em que os diálogos são muito intensos e carregam várias camadas de significado. Isso, apesar de agregar menos valor ao aspecto artístico da temporada, não diminui o potencial visual do que vemos. É como se este fosse substituído por uma construção mais comercial da imagem da série.

A segunda temporada de Demolidor está longe de ser considerada ruim. Existe uma certa confusão narrativa no decorrer nos episódios, principalmente no que diz respeito a decisões e motivações (construídas no próprio universo, logo vai do que se pode considerar com a suspensão de descrença) do protagonista (e, por tabela, daqueles que o acompanham), que deve ser considerada dentro do conjunto da obra. Merece ser vista, mas abre mão da maior parte dos assuntos a serem discutidos, no decorrer dos episódios.
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