
Bek é um mortal pacato que vive em um Egito ancestral dominado por deuses e forças ocultas. Quando o impiedoso Set, deus da escuridão, toma o trono da nação e mergulha a sociedade no caos, o jovem se unirá com o poderoso deus Hórus para formar uma expressiva resistência.

Que merda foda!
De vez em quando, surge um filme ou outro que ultrapassa barreiras como bom e ruim, certo e errado e qualquer outra coisa que se aproveite dessa dicotomia para se promover. Deuses do Egito (Gods of Egypt) é exatamente esse tipo de filme, que chega a ser tão ruim que dá a volta por cima e se torna... algo a mais. Os 100 minutos de filme (que parecem 300) são uma confusão tão grande que é impossível não sair do cinema sentindo algo forte (bom ou ruim) por ele.
O roteiro é assinado por Matt Sazama e Burk Sharpless, dirigido por Alex Proyas e estrelado por Gerard Butler, Nikolaj Coster-Waldau, Elodie Yung e Brenton Thwaites. A música é coordenada por Marco Beltrami e a fotografia é dirigida por Peter Menzies Jr.
Por se aproveitar da mitologia egípcia para construir seu contexto, o filme é cheio de conceitos interessantíssimos, como a ideia de uma Terra plana, bem como liberdades narrativas inerente a esse tipo de abordagem mitológica, como o homem que vence a luta e retira os olhos (que dão o dom da visão perfeita) do seu oponente. Essas coisas funcionam muito bem em tela, enquanto ainda são artifícios que ajudam a compor a atmosfera da trama, mas começam a preocupar um pouco a partir do momento em que se tornam o centro das atenções.

Também por se passar no Egito, existiu uma grande controvérsia levantada pelo público e pela imprensa em relação à escolha do elenco do filme, composto, praticamente, apenas por atores brancos, com exceção de um negro. Talvez, o problema com representatividade, que volta constantemente à pauta nos últimos tempos, seja levado na brincadeira pelo núcleo de atuação do filme. E, ao assistir, percebemos que isto nem é balanceado pela qualidade das atuações. Gerard Butler parece não querer estar ali, Nikolaj Coster-Waldau percebe o quão ridículo é aquilo tudo e entrega uma performance digna de um deus extremamente canastrão e Brenton Thwaites (de onde diabos saiu esse garoto?) poderia facilmente ser trocado por um cachorro tentando falar enquanto pega fogo.
Em alguns momentos, o longa parece abandonar seu aspecto de filme (com seres humanos de verdade atuando na frente de uma câmera de verdade) e se transforma em uma animação, inclusive bastante baseada na tradição dos animes japoneses. Se você é uma dessas pessoas que gosta de efeitos realistas, mesmo que na medida do possível, é provável que você chegue a sentir vontade de sair do cinema. O senso de realidade é totalmente abandonado em prol da fantasia megalomaníaca do filme e a história realmente segue um rumo muito além das fronteiras da realidade. Para quem não se apega a esse tipo de questão, é possível que essa virada seja uma das coisas mais interessantes do filme.
Deuses do Egito é uma experiência tão megalomaníaca quanto seu vilão. Mesmo com todas as suas liberdades narrativas, o filme pode ser uma porta de entrada interessante para quem tem vontade de entender um pouco sobre a mitologia egípcia e sobre as criaturas abordadas nela. Aliás, considerando todas as "liberdades" que o filme toma e a forma como ele abraça a sua própria estupidez, é bem possível que ele entre tanto na sua lista de piores filmes do ano, quanto (dependendo do quão empenhado você estiver na tarefa de não levar nada a sério) na de filmes mais divertidos. Não consigo encontrar uma escolha de palavras melhor do que "que merda foda".
