Brooklyn

SINOPSE 
A jovem irlandesa Ellis Lacey se muda de sua terra natal e vai morar em Brooklyn para tentar realizar seus sonhos. No ínicio de sua jornada nos Estados Unidos, ela sente falta de sua casa, mas vai tentando se ajustar aos poucos até que conhece e se apaixona por Tony, um bombeiro italiano. Logo, ela se encontra dividida entre dois países, entre o amor e o dever.

Lar é onde o coração está.

Eu confesso que tenho um certo problema com filmes de época que não sei explicar exatamente. A impressão é de que a maioria deles se preocupa tanto em fazer uma representação interessante da época, que acabam deixando de ousar e criar algo interessante no geral. O clássico parece tomar lugar e sobrepor a ousadia. Mas fico sempre feliz quando encontro filmes que conseguem conciliar ambos e vão além do que iriam se ficassem presos a apenas um dos elementos. É assim que Brooklyn consegue ser extremamente agradável em sua proposta.

Com base no romance de Colm Tóibín, o roteiro é adaptado por Nick Hornby e dirigido por John Crowley. No elenco estão Saoirse RonanEmory CohenDomhnall GleesonFiona Glascott. A fotografia é dirigida por Yves Bélanger, enquanto os créditos de música são de Michael Brook.

Brooklyn nos apresenta uma garota chamada Eilis, que vive desconfortável com sua própria terra natal, como se não se identificasse com aquele lugar. Logo de início, sabemos que ela vai para os Estados Unidos, mas não sabemos o motivo exato (sinceramente, nem precisamos saber). A informação que nos interessa é que Eilis está se sentindo rodeada e até mesmo sufocada. Ao menos é isso que a direção de Crowley sugere, com seus planos fechados e sempre muito bem enquadrados na protagonista.


E é essa direção, tão inspirada e de uma forma tão sutil, que transforma o filme em algo maior que ele já seria. É muito sugestivo, por exemplo, que o plano mais aberto possível surja justamente quando Eilis avista os Estados Unidos pela primeira vez, representando a liberdade que o lugar oferece. Tão interessante quanto isso, é o modo como ele consegue apresentar duas Irlandas extremamente diferentes, pelas luzes, as cores e os enquadramentos, mesmo que sejam o mesmo lugar, mostrando como a moça (e não sua terra natal, como fica bem claro) mudou com o tempo.

Brooklyn nos faz pensar em como o pertencimento faz de nós quem nós somos. Seja através de bens materiais, de sonhos ou de ligações com outras pessoas, nosso lar é onde nós escolhemos (ou o local que nos escolhe) para fazer de morada. Não importa o quão fortes sejam nossas raízes em outros lugares.

Saoirse Ronan cresceu. Ou pelo menos é isso que ela nos mostra aqui, como protagonista. Mesmo interpretando uma garota jovem e não muito bem resolvida, a atriz já consegue mostrar um lado muito mais maduro do que nos lembramos. Demonstrando sua passagem para a fase adulta, a atriz não só interpreta uma moça que é livre para viver em outro país e se casar, como faz isso muito bem. Ao final do filme, conseguimos olhar para ela da mesma forma com que olhamos para uma mulher que interage com ela em um mesmo contexto, no filme. É um crescimento digno de nota, tanto em atuação quanto em postura.


O arco narrado em Brooklyn tem um cunho muito mais emocional que lógico. Talvez por isso, alguns momentos que foram colocados ali não pareçam fazer muito sentido, a princípio (e nem posteriormente, em alguns casos). Esses momentos causam um certo estranhamento, parecem estar ali apenas para encher linguiça. O filme seria menor (e melhor) sem eles, sem perder praticamente nada de profundidade.

Brooklyn é um filme muito bonito, que funciona de forma muito linear, mas que não deixa de ser interessante por isso. É marcado por boas atuações, uma trilha sonora poética e uma belíssima lição de vida. Mesmo tendo um problema ou outro, merece ser visto e absorvido com calma e carinho.
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