Steve Jobs


SINOPSE 
Três momentos importantes da vida do inventor, empresário e magnata Steve Jobs: os bastidores do lançamento do computador Macintosh, da empresa NeXT e do iMac.



A figura pública de Steve Jobs tem praticamente a mesma configuração que um um minotauro e afins. Seu nome evoca a natureza de uma criatura mitológica habitando o mundo real, principalmente entre as pessoas que acompanham e participam, mesmo que como consumidores, do mercado de tecnologia. Por causa de seus feitos, muitos materiais já foram produzidos sobre ele, de livros a documentários, passando por este casamento perfeito que discutimos agora.

Com base no livro homônimo de Walter Isaacson, o roteiro foi escrito por Aaron Sorkin e dirigido por Danny Boyle. Entre os principais nomes do elenco, estão Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen e Jeff Daniels. A trilha sonora é coordenada por Daniel Pemberton, enquanto a fotografia é dirigida por Alwin H. Küchler e Elliot Graham figura como montador.

Para fazer jus a seu homenageado (ou diria estudado?), o filme se comporta de um jeito nada convencional em sua estrutura: ao invés de se organizar de maneira formal ao redor da vida de Jobs, o roteiro de Sorkin tem a divisão clássica de três atos extrapolada e apresenta, em cada um deles, os momentos nos bastidores que precedem os lançamentos de três produtos, sendo eles o Machintosh, o NeXT e o iMac. Entre os atos, que sempre terminam antes do início propriamente dito das apresentações, temos interlúdios contextualizando os espectadores em relação ao tempo e aos acontecimentos referentes a cada uma dessas situações.


Tendo essa estrutura, Steve Jobs é um desses filmes baseados em diálogos, o que o torna totalmente dependente de seu roteiro e da qualidade da atuação das pessoas que o imprimem na tela. Felizmente, esses dois aspectos estão em excelentes mãos. O roteiro de Aaron Sorkin, que parece escrever diálogos geniais com a mesma facilidade que uma pessoa normal tem de dizer bom dia, é tão ágil que, em certos momentos, precisamos parar um pouco para respirar e pensar melhor sobre o que está sendo dito ali. Em um contexto normal, a crítica aos diálogos de Sorkin é que ele escreve falas tão boas, que, no fim das contas, todas as pessoas acabam falando do mesmo jeito. E aqui (com exceção de Lisa nos dois primeiros atos) ele encontra uma casa para sua habilidade, reunindo todas as pessoas que falam do mesmo jeito sob o convincente argumento de que isso acontece porque são todas iguais. Jobs, Wozniak, Hoffman e Sculley são figuras dignas do nível de diálogo que estamos falando (de forma um pouco menos interessante do que falaríamos se escritos por Sorkin).

E se o texto é (in)tenso e (ex)tenso, cabe ao elenco tirá-lo do papel e colocá-lo no ar da forma mais orgânica possível. Nesse aspecto, Fassbender, Rogen, Winslet e Daniels estão mais que à altura do desafio. Daniels, por já ter trabalhado com os textos de Sorkin em The Newsroom, parece repetir um pouco da fórmula de seu Will McAvoy, adicionando um pouco do peso da idade e da sabedoria que Sculley pede. Fassbender, por sua vez, não poderia ser uma escolha mais acertada, tendo o típico carisma do vilão respeitável (algo muito próximo da forma como abordam Jobs neste filme): aquele que temos a absoluta certeza de que é alguém detestável, mas que não conseguimos resistir ao impulso de respeitar.

Sendo o assunto respeito, sinto que aqui deveria falar um pouco sobre a montagem de Graham. Ao fazer uma justaposição de planos situados em contextos diferentes, como na cena em que são mostrados dois diálogos distintos entre Jobs e Sculley ao mesmo tempo, a montagem dá um novo significado a esses diálogos (talvez tornando o filme um pouco mais didático) e aumenta infinitas vezes o nível de importância de cada um deles e (por que não?) do diálogo entre os diálogos que são apresentados.


Algo importante de manter em mente enquanto vemos o filme é que aquele Steve Jobs que estamos acompanhando é um homem extremamente versátil, que tem a capacidade de se reinventar (como criador, não como pessoa) e de inovar a cada ato do filme. A trilha sonora de Pemberton parece, algumas vezes, tentar emular esta característica do protagonista. É possível ver isso, por exemplo, ao perceber que ela varia de personalidade entre os atos, mesmo que estejamos vendo momentos teoricamente iguais (sendo simplista, no sentido de "são três lançamentos de produtos).

Steve Jobs, como disse no início do texto, me parece ser o casamento perfeito entre vários aspectos que já são bons separadamente (mesmo que com ressalvas) e ficam ainda melhores quando juntos. Seu texto, apesar de ser extremamente diferente, caminha junto ao de Os Oito Odiados no que diz respeito à qualidade dos diálogos e merece destaque.
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