O Regresso

SINOPSE 
Hugh Glass parte para o oeste americano disposto a ganhar dinheiro caçando. Atacado por um urso, fica seriamente ferido e é abandonado à própria sorte pelos parceiros e o covarde Fitzgerald. Entretanto, mesmo com toda adversidade, Glass consegue sobreviver e inicia uma árdua jornada em busca de vingança.

Duas pessoas vão a uma sessão de O Regresso.
Ao sair, uma olha para a outra a pergunta:
- Quem você acha que se arrastou mais durante esse filme?
A outra, entristecida, responde:
- O Iñárritu!
Nenhuma das duas riu. Não era uma piada. Não das boas, pelo menos.

Dirigido por Alejandro G. Iñárritu, que assina o roteiro em parceria com Mark L. Smith, o filme conta com nomes como Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson e Will Poulter. A fotografia é dirigida novamente por Emmanuel Lubezki e os créditos de trilha sonora vão para Alva Noto e Ryûichi Sakamoto.

O cineasta Iñárritu ficou muito conhecido para o grande público recentemente por causa de seu filme Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância), que lhe rendeu vários prêmios grandes. E é na direção oposta a Birdman que ele navega com O Regresso. Ao se enfiar na floresta com sua equipe, o diretor aborda temas como a exploração da natureza, o preconceito e a discriminação, mesmo que de forma bem superficial.


Por mais que eu tente, não consigo pensar em muitas coisas para escrever sobre O Regresso. O filme é bastante anticlimático, o que torna seu ritmo extremamente lento. A brincadeira do início deste texto vem exatamente daí. Tal qual seu protagonista, o filme passa a maior parte do tempo se arrastando e tentando passar mensagens sem muito sucesso. As duas horas e meia se esticam de tal forma, que a partir de determinado ponto se torna quase impossível não espiar o relógio de vez em quando, para ter noção de quanto tempo já se passou e tentar prever em quanto tempo o filme chegará a algum lugar.

Quando procuro elogios para o filme, o que mais passa pela minha cabeça (talvez por ser o mais destacado) é que, se tudo der errado, ele ainda pode ser utilizado como amostra em lojas que vendem televisões. Visualmente, o filme é muito interessante. A parceria do diretor Iñárritu com o diretor de fotografia Lubezki se repete e o resultado é tão bom quanto se esperaria. Este talvez seja seu principal trunfo: a capacidade de criar um espetáculo visual interessante para quem o vê. Alguns planos chegam a soar de forma épica, mas são mal aproveitados dentro da estrutura do filme.

Grande parte dessa culpa vai diretamente para a trilha sonora. Priorizando a combinação com o tom frio que a floresta agressiva e cheia de inimigos traz para o filme, a trilha se mantém sempre abaixo do radar. As consequências disso são claras: não há clima no filme. Seja nas cenas de combate ou em um momento-chave entre o protagonista e seu filho, a ausência de uma trilha marcante é recebida com frieza pelo espectador. A impressão é de estar, realmente, assistindo a apenas um demonstrativo da qualidade de uma televisão.


Além de toda a questão da realização técnica, o filme funciona muito em torno das atuações de suas personagens principais. Não é à toa que tanto DiCaprio quanto Hardy receberam indicações a grandes prêmios por seus papéis. Não é incomum perceber que, vez ou outra, o primeiro apela para o famoso overacting. Sendo racional, é possível que tanto o protagonista quanto seu antagonista (que começa sendo bem construído, como um homem metódico e calculista, mas logo desbanda para a covardia e o vilanismo) precisem do nível de atuação que cada um dos atores entrega. Mas, vez ou outra, é possível perceber que DiCaprio dá uma exagerada aqui e ali (inclusive, em sua campanha pelo Oscar, ele chega a dizer que comeu partes cruas de animais de verdade durante as gravações). O último plano do filme (Glass encarando a câmera) não só ajuda a evidenciar isso, como também parece ser o ator dizendo "Agora vai, né?".

O Regresso não emociona, não provoca o raciocínio e nem sequer conta com muitas cenas memoráveis. Mostra que Iñárritu está começando a voltar para seu lado autoral, depois do sucesso de Birdman (que não deixa de ser autoral pra C@%$*&o!), mas ainda não sabe muito bem como fazer isso. Tenta ser "grandioso", mas acaba ficando mais perto de ser apenas "grande". Provável e felizmente, nos esqueceremos dele até o fim do ano.
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