
Michael Stone é um palestrante motivacional que acaba de chegar à cidade de Connecticut. Ele segue do aeroporto direto para o hotel, onde vai ficar durante a noite para dar uma palestra na cidade no dia seguinte. Lá, Michael conhece Lisa, por quem se apaixona perdidamente.

Charlie Kaufman é um roteirista muito conhecido por seus filmes em parceria com os diretores Spike Jonze e Michel Gondry. Com trabalhos como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Adaptação, Kaufman tem um trabalho sólido como um escritor, acima de tudo, sobre o ser humano, a humanidade e todas as bagunças existencialistas em torno da nossa existência. Anomalisa, seu segundo trabalho como diretor (e primeiro de animação) é um exemplo muito interessante disso.
O roteiro é todo de Kaufman, enquanto a direção foi um trabalho realizado em pareceria com Duke Johnson, que já tem experiência com animações. As únicas três vozes no elenco de animação são de David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan. A fotografia foi dirigida por Joe Passarelli, enquanto os créditos de trilha sonora vão para Carter Burwell.
Assim como em seus outros trabalhos, em Anomalisa, Kaufman aborda várias questões tangentes ao modo como experimentamos o mundo e nos relacionamos com outras pessoas. Acompanhamos a história de Michael Stone, um guru do Serviço de Atendimento ao Consumidor, que desenvolveu um estudo que promete aumentar em 90% os resultados já obtidos pelas empresas. Grande parte da melancolia do filme se apoia no fato de que nem ele mesmo acredita nos métodos que vende, visto que fala sobre tratar cada consumidor como um indivíduo, que teve uma infância, uma experiência de vida e um dia cheio, mas encara todas as pessoas do mundo como se fossem uma só.

Essa premissa é muito bem fundamentada na própria utilização da animação. Mesmo tendo um cenário realista (são seres humanos interagindo como seres humanos, afinal), a utilização da animação ajuda, desde o início, a gerar um clima surreal para o espectador. A técnica de stop motion reforça esse tom, já que a movimentação das personagens é estranha e chega a ser constrangedora, em alguns momentos. Além disso, o design das personagens, principalmente as faces (seria por acaso que os rostos de todas as pessoas são parecidos – e parecem montados, como máscaras?), deixa, logo de início, a promessa de que não estamos vendo um filme sobre pessoas normais.
Outro aspecto que influencia muito nessa representação surreal da experiência de vida de Michael é a utilização das vozes. Do início ao fim do filme, vemos o protagonista rodeado por burburinhos e sons urbanos, como se houvesse várias pessoas conversando ao redor dele o tempo todo. Por outro lado, tirando a sua voz e a de Lisa (sendo justamente esse o motivo para que se apaixone tanto), todas as outras vozes que ele ouve soam de forma uníssona, como se todas as pessoas tivessem a mesma voz, de um homem adulto.
Assumindo, várias vezes, a posição de deixar tudo muito bem explícito dentro da narrativa, este talvez seja o filme mais didático já escrito por Kaufman. Porém isso não faz com que ele deixe de nos fazer refletir sobre o que estamos assistindo e, mais importante, sobre como nos relacionamos com aquilo. Ora, se o filme trata de relações humanas (nesse caso podemos falar sobre narcisismo, capitalismo, futilidade etc.), nada mais justo do que nos colocarmos frente àquilo e nos perguntarmos o que aquilo significa para nós, independentemente dos outros. Isso não somente é proposto dentro do filme de forma temática, como também de forma explícita: Michael e Lisa fazem isso em determinados momentos (Michael com um objeto e Lisa com uma música – o que diz muito sobre as próprias personagens).

Em seus noventa minutos de duração, Anomalisa é algo muito contido e introspectivo. Isso é refletido, claro, no próprio protagonista. A história que acompanhamos passa mais tempo voltada para os sentimentos dele do que para as próprias ações. A trama toda é muito centrada e simples, mas ao mesmo tempo consegue ser bastante complexa. Cada uma das discussões levantadas ali renderiam um bom papo filosófico e talvez, mesmo fazendo um esforço considerável para mostrar cada um dos pontos que quer levantar, este seja o maior trunfo de Anomalisa: o paradoxo (assim como os que rodeiam seu protagonista) de ser algo simples e complexo ao mesmo tempo.
O ponto que mais volta à tona, enquanto penso neste filme, é a história da pessoa que é solitária em meio à multidão. Esse não é o tema mais original do mundo e foi explorado com perfeição em Ela (filme de Spike Jonze), por exemplo. Como é que alguém poderia se relacionar com uma pessoa com a mesma voz e o mesmo rosto que todas as outras e ser feliz, ao mesmo tempo? O que é o amor, então, senão transformar alguém que é igual a todos em um indivíduo único? Seria, então, Michael impossibilitado de amar por ver todos da mesma forma ou seria sua impossibilidade justamente a causa disso? E o que é mais importante e urgente, no fim das contas: o respeito pelas instituições ou a busca pela felicidade?
Anomalisa talvez seja um dos filmes mais indispensáveis do ano, até agora. O filme não somente prova que Charlie Kaufman está em ótima forma, como também evidencia que nós, seres humanos, estamos bem longe disso como criaturas sociais. Se não por seu apelo político (expressado em um momento de catarse em que vemos Michael “por baixo de sua máscara”), então por seu apelo humano e filosófico. Pois se Michael é um homem perturbado por viver de forma paradoxal (por vender algo que não acredita nem de longe) e este mesmo paradoxo é uma peça de grande valor para o filme (o fato de ser simples e complexo ao mesmo tempo), não seria esse “paradoxo de paradoxos” algo maior que o próprio filme? Se somos todos criaturas que tentam fazer sentido a partir de nossas próprias contradições (que são nossas principais características) e, assim, definir quem somos, não estamos vivendo paradoxalmente à nossa própria forma? E, mergulhando ainda mais nesse problema, não é isso que nos torna humanos?
