O Menino e o Mundo


SINOPSE 
Sofrendo com a falta do pai, um menino deixa sua aldeia e descobre um mundo fantástico dominado por máquinas-bichos e estranhos seres. Uma inusitada animação com várias técnicas artísticas que retrata as questões do mundo moderno através do olhar de uma criança.



Aqueles que acompanham as premiações do Oscar estavam esperando para ver se Que Horas Ela Volta, o filme da Regina Casé, teria a força necessária para ser um dos nomes indicados como Melhor Filme Estrangeiro na edição de 2016. Tristemente, esse não foi o caso. Mas tivemos uma feliz surpresa ao saber que O Menino e o Mundo, filme do diretor e roteirista Alê Abreu, foi indicado a Melhor Animação, concorrendo ao lado de estúdios de peso como a Pixar, com Divertida Mente, e o japonês Ghibli, com Omoide no Marnie.

O Menino e o Mundo estreou no Brasil em 2014 e não obteve seu merecido destaque, sendo exibido em pouquíssimas salas de cinema. Foi vendido posteriormente para mais de 90 países e angariou vários prêmios importantes, principalmente na Europa. A desvalorização de produções nacionais é um cenário mais comum do que se imagina: muitos filmes bons são abafados por blockbusters de comédia rasa (que possuem um enorme financiamento).

A grande sacada de Alê Abreu foi trazer uma discussão complexa em um filme mudo, o que ajudou bastante na internacionalização da produção (principalmente para os norte-americanos, que odeiam legendas). Existem alguns poucos diálogos que são ditos em uma língua inventada (que nada mais é do que nosso bom e velho português falado ao contrário), mas que são completamente compreensíveis pelo contexto das cenas. No mais, são as belas construções visuais casadas com efeitos sonoros fantásticos que contam a história.



O enredo fala sobre uma criança do interior que é abandonada pelo pai. Sem entender ao certo que seu pai estava indo atrás de melhores condições de vida na cidade grande, o menino, tomado pela saudade, decide ir atrás do seu ente querido. O filme faz críticas ao capitalismo desenfreado, demonstrando o contraste entre uma vida simples no campo e a correria diária de uma grande metrópole. Tudo isso através dos olhos e da inocência de uma criança.

Enquanto o campo é colorido e aconchegante, a cidade é acinzentada a assustadora. A jornada do menino fica cada vez mais difícil a medida em que ele vai adentrando aquele universo até então, desconhecido. Em sua cabeça, as máquinas são monstros gigantes e o consumismo, no qual as pessoas humildes trabalham para fabricar a matéria prima de itens que elas mesmas não conseguem comprar, não faz o menor sentido. E ao passo que os ricos e poderosos parecem cada vez mais cruéis, os trabalhadores, oprimidos e sem voz na sociedade, se tornam apenas uma massa de indivíduos semelhantes e quase sem importância. É uma dinâmica que retrata a desigualdade social.

O amadurecimento e a nostalgia são outros temas fortemente abordados na animação. Levantando discussões sobre o que vale a pena, ou não, ser deixado para trás para poder seguir em frente. É um filme protagonizado por uma "criança", mas claramente pensado para os adultos.



A viagem do menino pelo mundo desconhecido lembra muito o método japonês de se contar uma história, uma espécie de fantasia que ao mesmo tempo se encaixa na realidade. Mas o estilo de animação é muito diferente. Alê Abreu brinca com técnicas que vão desde desenhos com lápis de cor e giz de cera, passando por pinturas e aquarelas e indo até colagens e artes digitais, cada qual com seu motivo, trazendo um contexto específico que ajuda no entendimento do todo.

Ruben Feiffer e Gustavo Kuralt, em parceria com o Grupo Experimental de Música e participação especial do Emicida, fizeram um excelente trabalho com a criação da trilha sonora. A maior parte dos efeitos sonoros foram pensados para o filme, como o barulho dos carros e dos animais, e não simplesmente gravados de cenas reais, trazendo uma personalidade e até mesmo um certo charme para a animação.

Enfim, O Menino e o Mundo tem seu espaço mais que merecido na maior premiação cinematográfica do mundo. É um obra que, além de muito bela, gera reflexões sobre a vida que levamos e retrata uma realidade muito presente no dia a dia dos brasileiros. Também serve para mostrar como o circuito de filmes nacionais não deve ser subestimado, basta apenas ir um pouco além das comédias enlatadas.



"A árvore dorme na semente."
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