
Uma garota prestes a sair do ensino médio e sonhando em ir para a faculdade, decide participar de um jogo online: verdade ou consequência, um jogo onde todos os seus passos e atos são vistos e manipulados por uma comunidade anônima de hackers.

Por Izaú Querino
Você é um jogador ou nasceu para ser plateia? A ideia por trás de Nerve é trazer esse debate dentro de uma fórmula já familiar ao público: o mundo dos dilemas e romances juvenis, das escolhas pro futuro – faculdade, mudança de cidade – e das gigantescas disputas por ego que recheiam o imaginário do high school nos Estados Unidos. Seria um ponto de partida excelente para um filme adolescente dos anos 90, mas estamos duas décadas à frente. E é aí que surge o “elemento x” de Nerve: e se você fosse um adolescente na nossa era da tecnologia, com aplicativos a mil e nuvens invisíveis acima de nós, de que lado você ficaria?
O filme, que tem a direção de Ariel Schulman e Henry Joost (Atividade Paranormal 3 e 4), é uma adaptação do livro de Jeanne Ryan e traz pra si o espírito do livro, carregando uma crítica sobre o quanto a tecnologia “invade” as nossas vidas. A representação dessa tecnologia é um jogo, chamado Nerve, que consegue dados pessoais dos participantes a partir do momento em que eles aceitam participar da competição e usa isso para criar situações e desafios. Algo que cheira familiar, ao pensarmos sobre mecanismos de busca, rastros de Internet, históricos de localizações e outros termos que ficaram muito comuns com a chegada da “era Android”. A diferença é que Nerve amplia esse debate: “players” aceitam ou recusam desafios propostos por “watchers”, que são pessoas que pagam para acessar as vidas dos players.
A crítica à nossa realidade é sutil, mas presente em todo o filme, e esse é um dos pontos positivos da trama. Porém, a intenção de misturar romance adolescente com tecnologia e crítica social e falha por não ter tempo suficiente para ser destrinchada. Durante o filme, fica uma sensação de que muita coisa poderia ser ampliada e que, se assim fosse, o resultado seria enriquecido.

Apesar dessa sensação, Nerve consegue apresentar bons começo e meio. A própria narrativa já conhecida do romance – e a atuação de Emma Roberts (Scream Queens) como a típica adolescente Vee, formando o casal inesperado com o rebelde e misterioso Dave Franco (Vizinhos 2 e Truque de Mestre: O Segundo Ato) – nos permite apreciar outras coisas do filme, como o excelente uso da luz neon pelas cenas (marcadas por Michael Simmonds – Atividade Paranormal 2 - na direção de fotografia). Nova Iorque, cidade que recebe a edição do desafio mostrada no filme, parece uma terra de luz multicolorida, pisca-piscas e holofotes, e nesse sentido o uso da luz é uma coisa que aparece no momento certo para expressar as coisas certas.
Só que mesmo a luz não salva o filme da sua perdição no final. Mais uma vez é a falta de tempo disponível para tantas ferramentas usadas que prejudica o enredo. A saída encontrada pela equipe de produção é um lugar comum, buscando um ensinamento que tem seu valor, mas seria muito mais sólido se construído com mais detalhes. A solução para a problemática do filme acaba sendo rápida e apresenta diversos furos do roteiro. Como parte disso, as atuações do grupo de amigos de Vee – em especial a de Sidney (Emily Meade, de The Leftover) e de Tommy (Miles Heizer, de Força Para Viver) – perdem seus dilemas através de diálogos de solução rápida, isso quando eles simplesmente não desaparecem do enredo. Outro ponto negativo é a relação da menina com sua família, especialmente sua mãe, Nancy (Juliette Lewis), que acaba tendo papel secundário e se tornando parte dos furos apresentados.
Mesmo assim, Nerve ainda vale a diversão: o filme é suave e a trilha sonora é repleta de sucessos adolescentes dos anos 2010. O thriller é bom para quem busca uma sessão de cinema tranquila e não quer sair da sessão deslumbrado com ensinamentos, atuações e montagens. Ou, quem sabe, procure alguma lição: o filme vai ter isso tanto para “watchers”, quanto para “players”.
