A Piada Mortal

SINOPSE 
Um dia ruim. É apenas isso que separa o homem são da loucura. Pelo menos segundo o Coringa, que quer provar seu ponto de vista enlouquecendo ninguém menos que o maior aliado de seu grande inimigo: o Comissário Gordon. Cabe ao Cavaleiro das Trevas impedi-lo.

Há muito tempo não tenho o costume de escrever sobre um filme logo depois de assistir. Nem devo me lembrar de como se faz isso. Mas não resisti à tentação de colocar as ideias no papel, depois de sair (bastante frustrado, já adianto) da sessão de A Piada Mortal oferecida pelo Cinemark por um valor "especial" que eu, como o grande bobo que sou, paguei.

O roteiro, feito com base na história em quadrinhos original assinada por Alan Moore e Brian Bolland, é escrito por Brian Azzarello e dirigido por Sam Liu. No elenco de dublagem, os já conhecidos Kevin Conroy, Mark Hamill e Tara Strong se repetem, agora acompanhados por Ray Wise, entre outros. Os créditos pela trilha sonora vão para Kristopher Carter, Michael McCuistion e Lolita Ritmanis.

Confesso que comecei a prestar mais atenção às representações femininas em filmes há muito pouco tempo (e que ainda não sou bom nisso). Mas acho terrível a inclusão da história da Batgirl no início da história. Se o intuito era de "dar algo a mais" pra ela do que um papel de mulher-desconhecida sendo agredida, o tiro talvez tenha saído pela culatra. Ela sai desse papel (que não é nada agradável, convenhamos) para o de aluna-instável-apaixonada-pelo-professor-muito-mais-velho agredida. A mudança aqui é que, na tentativa de dar mais profundidade e humanidade para a personagem, a transformaram na única coisa que ela não precisava ser nessa história: um possível par romântico. É problemático que essa mudança pareça mais atraente para o Azzarello do que manter o papel que já era dela de direito: o de filha/pupila (unindo mais ainda Gordon e Batman, visto que o laço dos dois com ela seria similar).


Aliás, por que não abordar esse prólogo a partir do ponto de vista do próprio Gordon, uma vez que ele está muito mais no centro do embate entre Batman e Coringa do que Bárbara? Perceba como a Batgirl é "humanizada", mas ele, que é a peça-chave da aposta entre as duas peças antagônicas do filme, permanece sendo um velho desinteressante dentro da história que está sendo contada ali. Antes de prosseguir, preciso deixar claro que meu problema não é com a existência das mudanças, mas sim com a forma como elas foram feitas. Se existe tempo a mais para desenvolver algumas coisas no roteiro, já que o quadrinho original é pequeno para os 80 minutos de filme, que esse tempo seja bem gasto. Um bom jeito seria de ver a Bárbara como heroína a partir do ponto de vista de Gordon (e até mesmo do próprio Batman).

Não é só a questão das mudanças narrativas que me incomoda. O filme, em si, é mal dirigido e parece ter sido feito com certa pressa. Alguns planos do filme sequer se conectam, mesmo dentro da mesma sequência. Vale lembrar que as ligações entre os planos nos quadrinhos são muito diferentes do cinema, visto que esse segundo não tem sarjeta (espaço extra-plano). Logo, mesmo filmando as cenas exatamente como nos quadrinhos, você corre o risco de ter um problema como o que existe aqui.

Além disso, o quadrinho rouba uma característica dos livros que é o espaço que você preenche com a sua cabeça. Por exemplo, mesmo sendo muito visuais, as HQs não têm trilha sonora além da que você cria na sua cabeça. Isso é o grande responsável do aspecto anticlimático da cena final, que não vou descrever aqui em respeito às pessoas que não leram a história de quase trinta anos que deu origem ao filme e podem considerar essa informação como spoiler. A cena é filmada de um jeito quase idêntico ao que é apresentado no quadrinho, com poucas adaptações. O problema é que essa adaptação serviu mais para tirar elementos que já compõem esse clímax do que para adicionar novas coisas, transformando algo que (literalmente) só precisava ser filmado (tendo a possibilidade de deixar ainda melhor) em um final vazio, que não tem o clima necessário para chocar e intrigar como o material-base faz.

A Piada Mortal é o típico exemplo de adaptação que, para funcionar bem, só precisava ser filmada (ou animada, nesse caso) com atenção e esmero. É uma pena que a animação não tenha sido preparada com nenhuma das duas coisas, pelo menos não no nível que um dos maiores clássicos da DC Comics merecia. Nesse sentido, o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller foi muito melhor tratado pelo estúdio. Alan Moore deve estar se contorcendo em sua caverna, com seus amigos elementais da natureza.
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