
Nesta série derivada da premiada Breaking Bad, Jimmy McGill, um advogado ambicioso mas quase sem clientes, decide subir na vida e se transforma em Saul Goodman, o advogado capaz de tirar Walter White de vários problemas – com manobras nem sempre legais.

Depois de uma excelente temporada, Better Call Saul volta para um segundo ano melhor, mais intenso e mais sombrio. À medida em que nos aproximamos do Saul e do Mike que conhecemos em Breaking Bad, as coisas vão ficando ainda mais interessantes. Mesmo que tenhamos plena noção de como será o futuro deles, não fazemos a menor ideia de como é que eles chegarão lá. A imprevisibilidade de Better Call Saul é, sem dúvidas, um grande atrativo da série (mesmo para aqueles que condenam prequels pela falta de surpresas).
Criada por Vince Gilligan (criador de Breaking Bad) e Peter Gould (autor do episódio que introduziu Saul Goodman na série), Better Call Saul é exibida no canal americano AMC e é distribuída pela Netflix, aqui no Brasil. Entre os principais nomes do elenco, estão Bob Odenkirk, Rhea Seehorn, Jonathan Banks e Michael McKean. A música é creditada a Dave Porter e os créditos de direção de fotografia são de Arthur Albert.
Se tem algo que identifica Better Call Saul para os viúvos de Breaking Bad, quase tanto quanto as próprias personagens, é o apelo visual que a série tem. Não é incomum que a gente se depare com planos tão complexos e significativos para a trama que nos dão aquela impressão de "isso é a melhor coisa que eu vi hoje". Aliás, esse mesmo apelo visual me fez pensar, várias vezes, em como uma simples análise da temporada como um documento todo acaba sendo simplista e insuficiente. A maioria dos episódios é tão grande (mais em significado do que em duração) que o mais justo seria fazer uma análise semanal, acompanhando os desenvolvimentos (narrativos e estéticos) à medida em que eles acontecem.

Dentro dessa construção estética, tão bem elaborada, temos a famosa brincadeira com as cores. Aqueles que acompanharam a jornada de Walter White, muito provavelmente, se depararam com teorias que extrapolavam a mera psicologia das cores e dava um verdadeiro sentido narrativo para cada escolha cromática dentro dos episódios. Em Better Call Saul essa construção ainda existe, mas toma uma forma um pouco diferente: aqui temos a velha brincadeira do quente e do frio, sendo "quente" quando estamos nos aproximando e "frio" quando estamos nos afastando. Ou seja: os elementos que (re)aproximam Jimmy de seu caráter criminoso têm cores quentes, como amarelo e vermelho (sabemos que, em Breaking Bad, Saul não é nada convencional em suas maneiras), enquanto os elementos que o levam para o lado bom, justo e "correto" têm tons mais frios, como azul, por exemplo.
Além disso, a série é marcada por cenas extremamente icônicas, que não abusam de nenhuma construção convencional e nem fazem nenhum alarde para se eternizarem. Um grande exemplo é quando acompanhamos Mike e a mira de uma arma, por vários minutos (ou segundos? ou horas?), sem a presença de nenhuma trilha sonora, nem diálogos e nem nada. Apenas a mira da arma e o vento. Outra grande cena, aproveitando o link com a questão das cores, é o momento em que Jimmy finalmente quebra o carro corporativo da firma onde trabalha para conseguir colocar seu copo amarelo (percebe o simbolismo por trás desse ato? ). Ambas são cenas longas, que se escondem atrás da simplicidade que apresentam para passar a mensagem complexa que têm em seu subtexto. É um trabalho de mestre.

Nesta temporada também temos uma viagem mais a fundo da relação entre Chuck e Jimmy e o que faz os dois serem como são e, consequentemente, a relação deles ser como é. Seja em flashbacks, diálogos ou ações, fica muito claro como funciona a dinâmica entre os dois irmãos, de forma bem construída, mas didática em um nível que chega a ser meio desnecessário. Paralelamente a isso, vemos o desenvolvimento de Mike, também em seu caminho para se tornar aquele que conhecemos entre Breaking Bad. Nesta temporada, principalmente por parte dele, temos contato com duas figuras icônicas da série original (uma delas em um estado muito diferente do que conhecemos), indicando que não veremos a jornada apenas de Mike e Jimmy nas próximas temporadas. O jeito é esperar pra ver.
Em uma excelente segunda temporada, Better Call Saul segue sendo uma das séries mais interessantes em exibição atualmente (entre as que eu acompanho, claro). Se não impressionar pelo apelo visual, certamente vai te manter prestando atenção pelas atuações excelentes, as personagens carismáticas ou pela trama envolvente.
