American Crime Story: The People v O.J. Simpson


SINOPSE 
O julgamento de O.J. Simpson. Ex-jogador de Futebol Americano, Orenthal James foi acusado em 1994 de assassinar a esposa, Nicole Brown, e o amigo Ronald Goldman. contado através da perspectiva dos advogados que conduziram o caso, a série irá explorar os acordos feitos de maneira informal e as manobras políticas conduzidas por ambos os lados envolvidos.



Vez ou outra, quando algumas séries acabam, a sensação que fica é de que alguma coisa acabou de mudar. Seja em você, seja na televisão (que, aliás, está vivendo um ótimo momento - inclusive, eu acho, melhor até mesmo que o cinema), algumas coisas têm o potencial de causar esse tipo de mudança aparente. A primeira temporada de American Crime Story, série que também tem a proposta de funcionar em formato de antologia, traz justamente esta sensação: para mim, é impossível que as coisas tenham se mantido do mesmo jeito (seja pela mudança em mim ou na própria tevê) na forma como eu consumo séries de televisão. Nos próximos parágrafos, eu tento falar um pouco sobre alguns pontos da série que me causaram esta impressão tão forte, mas já digo logo de cara: não me lembro exatamente da última vez que me senti assim em relação a alguma série que assisti.

A trama desta primeira temporada gira em torno do julgamento de O.J. Simpson, icônico jogador de futebol americano, no meio da década de noventa. Marcado por algumas características que o tornam mais absurdo que a própria ficção, o caso é cheio de reviravoltas e complicações que vão desde o círculo de amizades de O.J., até chegar à esposa do juiz responsável pelo julgamento, passando por problemas com advogados e a forte influência da mídia e a sociedade.



Assim como o julgamento, o maior apelo da série é de cunho racial e social. A situação dos negros em sociedade e, principalmente, a relação entre agentes de poder, como a polícia, e as comunidades afrodescendentes são dois pontos muito bem explorados. A cruzada de Johnnie Cochran, um dos advogados de O.J., contra a polícia de Los Angeles, muito marcada por episódios de racismo explícito e institucionalizado, é uma das coisas que mais marca o caso, tanto na série quanto, aparentemente, na vida real. Por outro lado, o contraponto de Chris Darden, advogado do lado da Promotoria, também é extremamente pontual e leva um equilíbrio que faz os dois lados da moeda envolvidos nesse duelo de ideologias se tornarem grandiosos, cada um de seu próprio jeito.

As atuações estão excelentes. Mesmo com o aspecto caricato que a série às vezes toma para suas personagens enquanto constrói as críticas que apresenta, a maioria dos atores está muito bem nas peles que vestem. O destaque vai para David Schwimmer, que tem o papel com desenvolvimento mais sutil durante toda a temporada. Aliás, não é somente o mais sutil, como também é o mais completo. Schwimmer entrega um Robert Kardashian indeciso entre dois conflitos de ideias: o julgamento público de seu amigo e seu próprio julgamento pessoal. Sarah Paulson também entrega uma performance muito intensa, interpretando a promotora Marcia Clark, também dividida por dentro entre seu dever como profissional e seus desafios pessoais como mulher.

O tom da série combina espetáculo com pessimismo. Somos colocados no lugar do júri e, por vezes, somos colocados também no lugar das pessoas que acompanhavam o caso pela televisão. Tudo parece meio caricato, talvez como uma forma de ironizar o absurdo do próprio caso, com todas as suas controvérsias. A cartela com o futuro das personagens no final deixa o tom de pessimismo ainda mais acentuado. É ainda possível, em alguns momentos, se ver torcendo para certas coisas acontecerem, bem como comemorar a cada reviravolta durante o julgamento



Algumas decisões estéticas interessantes marcam esta temporada. Algumas funcionam muito bem, como a mudança na razão de aspecto da tela, para 4:3, quando são mostrados trechos (aparentemente) reais de filmagens da televisão daquela época. Isso ajuda muito na ambientação e, principalmente, na construção do universo que está sendo apresentado. Pro outro lado, algumas coisas acabam se tornando cansativas, como o excesso de nervosismo da câmera em vários episódios, que tenta trazer para o campo visual o aspecto urgente e até mesmo sensacionalista. Essa utilização de movimentos de câmera é uma iniciativa bastante inteligente, mas que vai se desgastando e se tornando cansativa com o passar do tempo.

A primeira temporada de American Crime Story, intitulada The People v O.J. Simpson, tem grandes possibilidades de ser uma das melhores e mais relevantes séries de 2016. Com temas e discussões dignos de nota acompanhados de performances (em todos os sentidos) dignas de aplausos, a história traz para a televisão a mesma coisa que o caso ao qual se refere: um espetáculo midiático de tal grandeza que, com certeza, será lembrado mesmo daqui a anos.
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