

Antes de começar a realmente comentar sobre a quarta temporada de House of Cards, liberada na íntegra pela Netflix no dia 04 de março (seguindo o modelo de exibição do serviço de streaming, que já comentei aqui), preciso dizer que esse texto vai seguir um padrão mais pessoal do que os outros que costumo escrever. Além disso, já gostaria de alertar que existe um risco de que, assim como o material ao qual se referem, os próximos parágrafos sejam um pouco confusos dentro da construção do todo.
House of Cards foi adaptada para a série norte-americana por Beau Willimon, baseada em um livro que, inclusive, já virou uma série britânica. Os principais nomes do elenco são Robin Wright, Kevin Spacey (ambos já ganharam prêmios pela série) e Michael Kelly. Vários roteiristas e diretores, como o David Fincher, que é um dos produtores executivos, já passaram pela série. Jeff Beal, por sua vez, trabalhou na trilha sonora dos 39 episódios lançados até agora.
Para começar, preciso dizer o quanto esta temporada me incomodou com sua irregularidade, tanto técnica quanto narrativa. Seja na quantidade de tramas e temas que surgem e se encerram aleatoriamente em tela ou na inconstância estética, principalmente no que diz respeito à montagem (pretendo falar mais diretamente sobre as duas situações um pouco mais para frente), a temporada se desenvolve (será que se desenvolve mesmo?) de forma muito diferente das primeiras e até de seu ano anterior, mesmo que este seja o que mais se aproxima do que temos aqui.

Um ponto muito interessante em alguns episódios desta temporada é a utilização da montagem, principalmente quando é utilizada como elemento de antecipação ou quando intercala momentos reais com situações imaginárias e desconexas (em termos de continuidade, não de lógica). O grande ponto da antecipação, quando bem feita, é que ela te deixa ansioso até mesmo por uma negociação ou por um discurso, intercalando os ensaios com as próprias apresentações, dando importância para os dois pontos da história. Se combinada com este artifício, a utilização da alternância entre momentos reais e situações imaginárias seria muito mais interessante do que já é, dando a possibilidade de reservar surpresas muito mais intensas para o fim da temporada e tirando um pouco a sensação de que só está ali como elemento estético.
Ao contrário das duas primeiras temporadas, que trazem um Frank mais decidido e são consequentemente mais objetivas, esta quarta é cheia de subtramas e caminhos que se cruzam e se resolvem em poucos episódios, sendo ainda mais dividida do que a do ano anterior. Isso acaba criando um cansaço imenso durante os 13 episódios, que mais parecem 50. A lentidão, justificada (e compensada) nas outras temporadas, dá lugar a um ritmo arrastado por um único motivo: esta temporada tem, como único propósito, preparar o terreno para o que vem no próximo ano.
Não que tudo seja tempo perdido. Ainda existem excelentes diálogos, temas e subtramas abordados em vários episódios, como as linhas apresentadas nos discursos dados por Claire, a ameaça constante de uma organização terrorista vinda do oriente e o apontamento de um juiz para a Suprema Corte (nesses dois últimos exemplos, o timing é ainda mais interessante do que a própria situação).

Outro fator muito importante para o aumento do peso da temporada é o jornalista que investiga os podres de Frank, com base nas teorias de Lucas Goodwin. Com a saída de Lucas e de Zoe, o núcleo jornalístico se mantém apoiado em apenas um personagem, que não tem o menor apelo dramático junto ao público. Logo, temos uma temporada inteira que conta com momentos chatos, que fazem o episódio durar mais do que devia. A importância dessa subtrama para a temporada, no geral, é bastante compreensível e, além disso, existe um certo retorno a vários elementos esquecidos dos anos anteriores, mas o esforço narrativo empenhado aqui acaba a transformando mais em um peso do que em um interesse.
Mesmo a quebra da quarta parede, característica muito forte da série, acaba se transformando em algo que parece feito por obrigação, aqui. Se antes tínhamos relevância narrativa, levada à última potência com a reação de Frank ao perceber que estamos "espiando" sua discussão com Claire, na temporada passada, aqui parece que vemos o artifício sendo utilizado apenas para não deixar a "brincadeira" morrer. Frank volta a se dirigir ao público da mesma forma que fazia durante os dois primeiros anos da série, mesmo que não esteja mais na mesma posição. Ainda podemos conhecer um pouco mais sobre o protagonista a partir de seus monólogos, mas nada que é dito parece adicionar qualquer informação relevante que já não esteja sendo mostrada.
A quarta temporada de House of Cards é mais focada em Claire do que em Frank (mesmo que esta apareça sempre em segundo plano) e, por isso, sofre basicamente do mesmo problema que a quinta de Game of Thrones. Por maior que seja a quantidade de elementos que apresenta, dá várias voltas para chegar, praticamente, ao mesmo lugar. Os treze episódios se esforçam mais para nos preparar para o quinto ano da série do que para nos levar, de fato, a um novo status de seus personagens. Que venha, então, 2017!
