A Bruxa




SINOPSE 
Nova Inglaterra, década de 1630. O casal William e Katherine leva uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, cada membro da família seus piores medos e seu lado mais condenável.



Filme de terror é um assunto complicado: comercialmente falando, não costuma atingir um público muito grande, o que gera orçamentos baixos para produção e um certo "medo de ousar". Em consequência, quando uma fórmula chama a atenção do público ela é repetida a exaustão, como é o caso do estilo found footage, aquele com "filmagens amadoras" feitas por algum personagem da trama. É para piorar a situação, o terror é algo relativo; há quem goste de histórias que assustam a todo momento, com gritos e aparições; outros preferem o gore, monstros bizarros e sangue sendo jogado na tela.

A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale) segue por uma terceira via: o suspense; que causa incômodo, inquietação e dúvida; porém se desenvolve, propositalmente, de uma maneira mais lenta. Visto isso, é natural observar o quanto as críticas, por parte dos espectadores, estão divididas na internet. Se você não gostou, talvez não seja o seu tipo de terror, mas A Bruxa, de fato, possui algo diferente em sua essência.

O filme é uma coprodução entre os Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Brasil. Foi escrito e dirigido por Robert Eggers, sendo sua estreia nos cinemas. O elenco conta com Ralph Ineson (Guardiões da Galáxia), Kate Dickie (Prometheus), Anya Taylor Joy e Harvey Scrimshaw. Jarin Blaschke é o responsável pela fotografia e Mark Korven pela música.



Eggers nos transporta para a Nova Inglaterra do século XVII, onde uma família é expulsa de uma comunidade por desavenças religiosas e acaba tendo que se virar com pouquíssimos recursos. Este é o primeiro ponto que compõe a trama, a quebra de uma vida familiar saudável em um ambiente onde a relação vai se desgastando aos poucos. É um sentimento de desolação, que é auxiliado por todo design de produção: uma casa rústica, na beira de um bosque fechado em uma época do ano em que chove muito.

O segundo ponto a ser observado é como a religião influencia a vida daquelas pessoas. É tão forte que hoje poderia ser interpretado como uma espécie de fanatismo. O estopim para o rompimento familiar acontece logo no início do filme, quando o bebê, Samuel, desaparece misteriosamente, trazendo para Katherine e William, seus pais, a certeza de que algum mal está assolando a vida da família e, ao mesmo tempo, coloca em xeque as crenças religiosas de seus outros filhos.

Se toda essa situação já é motivo suficiente para causar incômodo, a presença e o medo do sobrenatural é a cereja de um bolo que foi bem construído. Mas e essa tal de bruxa de que tanto falam? A bruxa para aquela família - muito mais que uma assustadora senhora velha com uma verruga no nariz - é a personificação de todo mal e o auge da corrupção de uma alma humana. É a antítese de toda força religiosa presente ali.



Apesar de o enredo ser muito bom e até mesmo ousado dentro gênero, o longa se perde em alguns momentos em que os diálogos e as discussões familiares são muito maçantes. Por exemplo, uma vez que você já conhece o fanatismo religioso, várias cenas que reforçam isso poderiam ser dispensadas. Outro fator que incomoda é o excesso de explicação que Eggers dá nas cenas finais. Talvez por ser sua primeira grande produção, ele optou por não deixar dúvidas, mas seria melhor se todo o mistério do início se concluísse com alguns momentos apenas subentendidos.

É preciso destacar atuação de Anya Taylor Joy: a modelo conta com poucos papéis em sua carreira, mas interpretou muito bem a adolescente Thomasin. Harvey Scrimshaw, que interpreta Caleb, foi uma grata surpresa; o garoto inicia na trama com uma interpretação duvidosa, contudo brilhou nas cenas em que o personagem mais exigia o trabalho do ator.

Por fim, temos todo o trabalho de fotografia, música e efeitos sonoros que foram muito bem cuidados para que a imersão funcionasse bem, já que parte da proposta do filme era fazer com que o expectador pudesse se colocar no lugar das personagens. Toda a equipe parecia estar em sintonia e comprometida em entregar um bom resultado.



A Bruxa definitivamente não irá agradar à todos, mas é um bom filme para quem gosta de pensar velhos conceitos de uma nova maneira, trazendo um outro lado de uma figura que já foi amplamente explorada em diversas histórias, de quase todos os jeitos possíveis. É uma obra sensorial mesmo sem utilizar o velho e cansativo found footage. Vale a pena esperar para ver os futuros projetos de Robert Eggers.
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