
O pequeno Jack, de cinco anos, não conhece nada do mundo, exceto o quarto em que nasceu e cresceu acompanhado apenas por sua mãe, que pretende mudar esta situação.

Escrito pela própria Emma Donoghue, com base em seu livro homônimo, o filme é dirigido por Lenny Abrahamson (Frank) e estrelado por Brie Larson (Scott Pilgrim Contra o Mundo), Jacob Tremblay (Os Smurfs 2), Sean Bridgers e Joan Allen, entre outros. A fotografia é dirigida por Danny Cohen e a música é coordenada por Stephen Rennicks.
Pode ser extremamente clichê dizer isso, mas eu ainda me impressiono, de vez em quando, com como o mundo é tão grande que se torna possível que uma só coisa seja, em si, várias. Uma coisa pode ter significados diferentes para pessoas diferentes (ou até para a mesma pessoa, em momentos diferentes). Um quarto, por exemplo, pode ser uma prisão ou um mundo inteiro, dependendo do ponto de vista. E talvez seja isso o que faz de O Quarto de Jack algo muito mais complexo do que se mostra a princípio.
Este pensamento serve para o próprio filme, que é bastante sentimental e emocionante, mesmo causando um constante sentimento de aflição. Por lidar com situações e sentimentos muito distantes da nossa realidade, a história de Joy e Jack tem várias mensagens que se movimentam em segundo plano, enquanto torcemos para que a mãe e o filho consigam alcançar seus objetivos e sua felicidade. Ainda que, em certo momento, percebamos que mesmo a felicidade é relativa entre os protagonistas.

Quarto de Jack é quase claustrofóbico e aflitivo, mesmo em seus momentos de grandeza emocional. Até nos momentos mais "calmos" do filme, o sentimento é sempre de que algo está errado e de que a situação logo deve piorar. Um dos motivos para isso é a divisão óbvia do filme em dois momentos, sendo o primeiro deles muito claro narrativamente, enquanto o segundo é muito mais "amplo".
A direção de Abrahamson constrói muito bem esse primeiro momento, ao utilizar muitos planos extremamente fechados, mostrando as personagens completamente espremidas dentro da tela, com pouco espaço de respiro. A sensação de Jack, de que aquele quarto é o mundo inteiro, consegue ser passada muito bem ao espectador, nos planos longos em que o garoto viaja pelo espaço e naqueles em que (em uma colaboração entre o texto e a boa atuação de Tremblay) o garoto conversa com os objetos que o rodeiam.
Abrahamson também entrega as mudanças no clima que o texto exige. Enquanto o primeiro momento é extremamente fechado e conciso, a segunda parte do filme conta com uma direção muito mais documental, se aproveitando muito da câmera na mão e do zoom manual, como quem quer dizer algo sobre a influência da mídia no já conturbado estado de espírito de Joy e seu filho.

Se apoiando basicamente em Joy e seu filho, Jack, o filme depende muito do nível das atuações que Brie Larson e Jacob Tremblay entregam. Felizmente, o trabalho dos dois é excelente. Larson tem, nesse papel, uma das melhores atuações do ano e, provavelmente, uma das melhores da sua carreira. Mostra uma personagem complexa, com várias camadas de sentimentos e razões, mas que não deixa de ser palpável no drama que carrega.
O Quarto de Jack é, provavelmente, uma das coisas mais bonitas e mais tristes ao mesmo tempo que tivemos o prazer de ver em 2016. No meio de seu paradoxo, causa uma constante sensação de aflição, mas tem personagens tão interessantes que a vontade é de que aquilo não acabe. Fala sobre o que é o real, sobre a alegoria da Caverna, de Platão, sobre o controle da mídia sobre as pessoas, o papel da mulher na sociedade e, mais importante do que tudo isso, fala sobre laços.
